Ana Marcela, a hipérbole ambulante

16/07/2017

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Reinvenção.

Talvez seja essa a palavra de ordem na carreira de Ana Marcela Cunha. E a que mais chegue perto de defini-la.

Após a medalha de bronze conquistada hoje na prova de 10 km no Mundial de Budapeste, se reerguendo de uma grande decepção olímpica, não há como negar que a nadadora se reinventou. E não pela primeira vez.

Ana Marcela Cunha: capacidade única de se reinventar (foto: Satiro Sodré/SSPress)

Ana Marcela Cunha: capacidade única de se reinventar (foto: Satiro Sodré/SSPress)

Após um ciclo olímpico quase perfeito entre 2013 e 2016, muitos fatores ajudam a explicar a 10ª posição na prova olímpica do Rio de Janeiro, no ano passado, uma frustração para quem era favorita ao pódio: troca de treinador no ano olímpico; a descoberta de uma doença autoimune a alguns meses dos Jogos, que a forçou a ingerir medicamentos regularmente; a perda de uma nutrição em uma passagem da prova que lhe custou energia no final do percurso.

A primeira providência foi se submeter a uma cirurgia no baço, em outubro, para evitar de se manter tomando medicamentos para controlar a doença. Também retornou ao seu técnico de 2013 a 2015, Fernando Possenti.

Assim, como nas suas muitas trocas de cores de cabelo, Ana Marcela se reinventava mais uma vez.

Em 2013, se reergueu após sequer ter disputado a Olimpíada do ano anterior, ao sair do Mundial de Barcelona com duas medalhas.

O bronze de hoje, no entanto, tem sabor ainda mais especial. Afinal, até sua carreira foi posta em dúvida após o ano passado atribulado.

Momento da largada da maratona de 10 km - Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Onde está Wally? Largada da prova de 10 km  (foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

Em um final de prova emocionante, mostrou as principais características que a consagraram como uma das melhores nadadoras de águas abertas do mundo nos últimos tempos: controle de ritmo, sprint final e muita raça para se colocar entre as italianas Arianna Bridi e Rachele Bruni na briga pelo terceiro lugar.

Após alguns minutos de angústia, o resultado: medalha de bronze dividida com Bridi. Um empate inédito na história dos pódios dos Mundiais em provas individuais (em 2015, na prova de equipes, Brasil e Holanda empataram na segunda colocação).

O ouro foi para a francesa Aurélie Muller, conquistando o bicampeonato, e a prata para a equatoriana Samatha Arevalo, conhecidíssima pelos brasileiros por ser frequentadora assídua de nossos campeonatos brasileiros. É a primeira sul-americana a subir no pódio de provas de águas abertas em Mundiais com nome diferente de Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto.

Além do ressurgimento de Ana Marcela na elite mundial, o que a conquista de hoje representa?

Coach Alexandre Pussieldi fez um excelente levantamento que lista os feitos impressionantes da nadadora. Entre eles: maior medalhista brasileira em Mundiais de Esportes Aquáticos, com sete pódios, superando os seis de Cesar Cielo; e terceira maior medalhista no feminino das águas abertas da história do evento (atrás da holandesa Edith van Dijk e da alemã Angela Maurer).

Ana Marcela Cunha durante os 10km (foto: Satiro Sodré/SSPress)

Ana Marcela Cunha durante os 10km (foto: Satiro Sodré/SSPress)

Tais feitos falam por si só. Podemos acrescentar que Ana Marcela igualou van Dijk como nadadora com mais pódios na prova de 10 km, a mais importante das águas abertas, em Mundiais de Esportes Aquáticos: três consecutivos (a holandesa tem um ouro e dois bronzes entre 2001 e 2005, e a brasileira tem uma prata e dois bronzes entre 2013 e 2017).

Mas, na época de van Dijk, a prova de 10 km não era olímpica. Por isso, os nadadores não necessariamente priorizavam a distância. Hoje, há muito mais atletas que focam especificamente tal prova. E, por isso, a concorrência é maior.

E outro dado impressionante. Desde sua vitória nos 25 km no Mundial de 2011, Ana Marcela nadou oito provas. E conquistou medalhas em sete delas (ouro nos 25 km em 2011; prata nos 10 km e bronze nos 5 km em 2013; ouro nos 25 km, prata nos 5 km por equipes e bronze nos 10 km em 2015; e bronze nos 10 km em 2017). Na história do evento, em provas de águas abertas, o feito só é igualado, novamente, por van Dijk, que entre 2001 e 2005 também emendou uma sequência de oito provas e sete pódios.

Para que a comparação seja justa, os dados acima só levam em conta Mundiais de Esportes Aquáticos, e não os Mundiais de Águas Abertas, exclusivos da modalidade, realizados entre 2000 e 2010 em anos pares – se contabilizarmos os dois tipos de competição, van Dijk, por exemplo, teve mais oportunidades de nadar Mundiais do que Ana Marcela.

(todos esses recordes se referem à natação feminina em águas abertas. No masculino, o alemão Thomas Lurz é insuperável: tem medalhas nos 10 km em cinco Mundiais, de 2005 a 2013, e a incrível marca de 13 pódios consecutivos nas cinco edições que disputou – ele jamais terminou uma prova fora do pódio.)

Ana Marcela Cunha e a medalha de bronze. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Ana Marcela Cunha e a medalha de bronze (foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

Presente no pódio de todos os Mundiais desde 2011 (e, contando o Mundial de Águas Abertas, desde 2010), Ana Marcela é uma das mais eficientes e regulares nadadoras da competição nos últimos tempos.

Mas não se engane. A constância esconde várias nadadoras dentro de uma só. Ana Marcela aprendeu a se reinventar mais do que ninguém. Se certas pessoas são uma metamorfose ambulante, a brasileira é uma hipérbole ambulante, dado o tamanho e a relevância de seus feitos.

E com qual ficamos? Com a primeira campeã mundial da história da natação brasileira, em 2011? Com aquela que superou uma ausência olímpica com duas medalhas em 2013? Com a nadadora que subiu três vezes no pódio em 2015 e foi eleta a melhor do mundo? Ou com a de hoje, que exorcizou seus fantasmas olímpicos mais uma vez com um conquista histórica?

Não é preciso escolher. Com tal histórico, talvez seja inevitável pensar: caramba, o que ela poderia ter conseguido nas Olimpíadas de 2012 e 2016. Relaxem. A medalha de hoje mostra que, rumo a Tóquio, em 2020, ela continuará conseguindo. E muito.

Por Daniel Takata

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