As idas e vindas de Thiago Pereira

29/03/2017

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Lá se vai Thiago Pereira. O anúncio de sua aposentadoria da natação competitiva, feito hoje no Prêmio Brasil Olímpico, é emblemático. Nunca alguém mereceu tal honraria. Pudera: não é todo dia que o maior medalhista da história dos Jogos Pan-Americanos sai de cena. E também não é sempre que um nadador medalhista olímpico individual brasileiro anuncia sua retirada – o último havia sido Fernando Scherer. Em março de 2007. Há exatos dez anos.

O anúncio de Thiago surpreendeu a muitos. Mesmo que tenha aparecido pouco nas piscinas desde a Olimpíada do Rio de Janeiro – competiu só uma vez, no Troféu José Finkel -, sua presença sempre pôde ser sentida no mundo da natação. Já há algum tempo ele conquistou aquele status de onipresente que só os grandes nomes possuem, mesmo quando ausentes.

Foi naquele 2007 que ele ficou famoso. Suas oito medalhas e seis ouros no Pan do Rio representaram a melhor performance de um atleta na história do evento – igualou os oito pódios da costa-riquenha Sylvia Poll em 1987 e os seis ouros do americano Frank Heckl de 1971. Mas seis ouros e oito medalhas, nunca ninguém havia conseguido. Foi celebrado por todo o país e viro astro do esporte nacional.

Mas já vinha pavimentando uma trajetória de sucesso. Foi duas vezes medalhista no Pan de 2003, mas foi em 2004 que ingressou entre os grandes – mais precisamente no Campeonato Sul-Americano de 2004, em Maldonado, em que se tornou o 12º nadador mais rápido da história dos 200m medley. No Troféu Brasil, baixou dos dois minutos pela primeira vez na prova, e nos 400m medley bateu o lendário recorde continental de Ricardo Prado, por ocasião da prata olímpica de 1984. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, no primeiro embate contra Michael Phelps, Ryan Lochte e Laszlo Cseh, terminou na quinta posição nos 200m medley. Mas deu o troco em Lochte no Mundial de curta no mesmo ano, vencendo a prova. Tinha apenas 18 anos. Um 2004 inesquecível que pavimentou caminho para os anos seguintes.

Thiago Pereira ao lado de Oussama Mellouli e Ryan Lochte: campeão mundial de curta em 2004 (foto: Satiro Sodré)

Thiago Pereira ao lado de Oussama Mellouli e Ryan Lochte: campeão mundial de curta em 2004 (foto: Satiro Sodré)

Em 2005 ficou ausente dos grandes eventos, inclusive do Mundial de esportes aquáticos, por uma lesão. Mas, mesmo ausente, estava presente. A natação brasileira sabia que tinha uma joia para os próximos anos. Expectativa que se confirmou no Pan de 2007. Na Olimpíada de 2008, terminou os 200m e 400m medley novamente atrás de Phelps, Lochte e Cseh. Perdeu o posto de principal nadador do país para Cesar Cielo, vencedor dos 50m livre. E nos anos seguintes continou com a sina: nos Mundiais de 2009 e 2011, terminava sempre atrás dos rivais. Parecia que seu destino era terminar na quarta colocação.

Thiago incomodava-se, mas não se abalava. Sabia que, trabalhando duro, teria sua recompensa. Cesar assumira o papel de protagonista. Mas Thiago estava sempre lá. Jamais ausente, sempre presente. No Pan de 2011, conquistou novamente oito medalhas e seis ouros, enconstando nos recordes de maior medalhista brasileiro e maior medalhista da história do evento.

Mas olhos e mente estavam voltados aos Jogos Olímpicos de 2012. Em seu discurso hoje no Prêmio Brasil Olímpico, Thiago mencionou que na maioria das vezes o atleta não alcança seus sonhos. Certamente se referia aos vários quartos lugares já citados. É extremamente raro um nadador conquistar medalha em sua terceira Olimpíada após ter passado em branco as duas anteriores. Até então, apenas 13 nadadores haviam alcançado o feito. Mais que isso, ninguém conseguiu na história olímpica.

Contra tudo e contra todos, Thiago chegou lá e coroou sua história de perseverança. Na primeira prova do programa, deu fim ao tabu: medalha de prata nos 400m medley, sua maior conquista, em uma prova primorosa. Ao invés de ser agressivo no início, como era de seu feitio, poupou-se, manteve-se em quinto lugar até os 200 metros e teve a melhor parcial de peito na história da prova. Assumiu a segunda posição e não largou mais. Deixou Michael Phelps fora do pódio. Sua carreira até então já era fantástica e se parasse de nadar antes de Londres, com 18 medalhas em pans, campeão mundial de curta, campeão da Copa do Mundo (título conquistado em 2010) e recordista mundial (200m medley em piscina curta, em 2007), já estaria entre os maiores da história do país. Mas a medalha olímpica foi a coroação de sua trajetória.

Medalha de prata nos 400m medley nos Jogos Olímpicos de 2012 (foto: Satiro Sodré)

Medalha de prata nos 400m medley nos Jogos Olímpicos de 2012 (foto: Satiro Sodré)

As conquistas não pararam nos anos seguintes, incluindo medalhas em Mundiais de esportes aquáticos que ele nunca havia conseguido. Conquistou três, em 2013 e 2015. E, por justiça, deveria ter sido ouro nos 200m medley neste último, em que terminou na segunda posição atrás de Ryan Lochte, que executou movimento irregular na virada para o nado livre e não foi desclassificado. No Pan do mesmo ano, mais cinco medalhas, totalizando 23 na carreira e superando o ginasta cubano Erick López como o maior medalhista da história do evento – e também o nadador brasileiro Gustavo Borges como o esportista mais laureado do país.

Um ciclo olímpico que iniciou com uma prata nos Jogos de Londres, passou por medalhas inéditas em mundiais e o consagrou como “Mr. Pan”. Com a ausência de Cesar Cielo nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, ele era “o cara” da equipe, único medalhista olímpico da equipe brasileira. Presente, mais do que nunca. O fecho de ouro deveria vir com um pódio na Olimpíada brasileira. Infelizmente não foi o que aconteceu. A final dos 200m medley não foi tão forte quanto se esperava e com seu tempo usual brigaria pela prata. Mas errou na estratégia, foi muito agressivo no início da prova e sentiu no final. O acerto de 2012 não se repetiu em 2016.

Mas a falta da medalha em 2016 não maculou sua trajetória. Sua clínica de natação vem fazendo sucesso entre os jovens e é uma das mais concorridas do país. Neste ano fez parte de uma comitiva do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) que foi a Tóquio, no Japão, para avaliar as estruturas a serem utilizadas pela delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de 2020. Sim, Thiago já trabalha pelo esporte nos bastidores, e não é de hoje. Em 2013 foi eleito vice-presidente da comissão de atletas da Federação Internacional de Natação (Fina). Também faz parte da comissão de atletas do COB e foi escolhido pelos próprios atletas olímpicos do país para a comissão de aletas da Organização Desportiva Pan-Americana (ODEPA).

Thiago Pereira a partir de agora está fora das piscinas. Mas não pensem que ouvirão falar menos o nome dele por causa disso. Seus feitos e conquistas deverão ser lembrados para sempre, e nós da Swim Channel fazemos nossa parte para preservar a memória esportiva da natação brasileira. E, além disso, Thiago deverá continuar nos holofotes como uma das vozes ativas do nosso esporte. Precisamos de um nome como ele para isso.

O momento é de despedida para Thiago. Mas não se preocupem. Ele sempre volta.

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