As lições de Cielo

21/04/2016

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O único campeão olímpico da história da natação brasileira está fora da disputa da Olimpíada em seu país natal. Uma Olimpíada que ele ajudou a trazer para o país, em 2009.

A expressão acima é forte e carrega grande simbolismo. E, por isso mesmo, é emblemática.

A comoção foi grande no meio aquático após Cesar Cielo ter terminado os 50m livre na terceira posição ontem, no Troféu Maria Lenk, e ter perdido a vaga olímpica para Bruno Fratus e Ítalo Duarte.

Nas redes sociais, inúmeras homenagens foram feitas. Muitas vindas inclusive de companheiros de seleção de vários anos. O que ajuda a explicar o alcance que o nadador, mesmo fora dos Jogos do Rio de Janeiro, tem. E continuará tendo.

Com seu tempo de ontem, 21s91, mesmo distante de suas melhores marcas, ele teria conseguido classificação em qualquer outra seletiva do mundo entre as que já ocorreram, como as fortes australiana, francesa, japonesa e britânica.

Cesar Cielo (foto: Satiro Sodré/ SSPress)

Cesar Cielo (foto: Satiro Sodré/ SSPress)

Mas, por mais contraditório que pareça, sua glória no passado foi seu martírio no presente.

O ouro olímpico conquistado em 2008 e as conquistas subsequentes motivaram uma geração que aparecia e que, empolgadas com aquele feito, sonhavam em alcançar o patamar do ídolo.

Resultado: o Brasil, hoje, é um dos países mais fortes em provas de velocidade na natação. Bruno Fratus e Ítalo Duarte fazem parte da geração citada. São, por assim dizer, filhos do ouro olímpico de Cesar Cielo.

E foi assim que Cielo foi privado da disputa da Olimpíada de 2016.

Grande foi a repercussão, mas é preciso que se diga que essa não foi a primeira nem a última história de frustração de um atleta que fica fora de uma Olimpíada. Nesse mesmo Troféu Maria Lenk, vimos outros casos.

Minutos após a prova masculina, na disputa dos 50m livre feminino, Lorrane Ferreira saiu da água aos prantos, ao ter perdido a vaga olímpica por apenas três centésimos. Inconsolável e arrasada.

A frustração de Cielo não é maior que a de Lorrane ou que a de muitos outros.

E é aí que ele deixa mais uma lição e exemplo para todos nós.

Cesar Cielo (foto: Satiro Sodré/ SSPress)

Cesar Cielo (foto: Satiro Sodré/ SSPress)

Em 2008, o terceiro lugar nos 100m livre na Olimpíada de Pequim foi o impulso e a motivação necessários para Cesar Cielo virar Cesar Cielo e conquistar o ouro nos 50m livre.

Em 2012, a terceira posição olímpica nos 50m livre foi frustante, mas dali ele juntou os cacos para dar a volta por cima e vencer o Mundial de 2013.

Agora, mais um terceiro lugar se encontra em seu caminho. Não podemos prever quais serão suas consequências na vida e na carreira de Cielo.

Mas, como já demonstrou antes, ele tem forças necessárias para fazer disso um combustível para os próximos passos, sejam eles fora ou dentro da piscina.

Ontem, Cielo mostrou que não é diferente de Lorrane Ferreira ou de muitos outros. Ao louvar Bruno Fratus e Ítalo Duarte, deixou claro que sabe que a derrota faz parte da vida. O herói e ídolo mostrou seu lado humano após um dos maiores reveses da carreira.

Assim como sua vitória em 2008 inspirou hordas de nadadores brasileiros, sua derrota de ontem também deve servir de exemplo de tudo que o esporte, e a vida, se trata. Pois mostrou que, apesar do ouro olímpico, é igual a todos os outros.

Por isso, o momento é de reverência.

A Cesar o que é de Cielo.

Por Daniel Takata

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50m livre Cesar Cielo Rio-2016 Troféu Maria Lenk