Como participar de uma Olimpíada nas maratonas aquáticas?

Como funciona esse processo nas águas abertas? Aqui há uma explicação sobre a forma complexa das seletivas para a modalidade

13/05/2019 - Catarina Ganzeli

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Foto: Satiro Sodré/SSPress
Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto - Foto: Daniel Takata/Swim Channel

Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto - Foto: Daniel Takata/Swim Channel

Foto: Satiro Sodré/SSPress

Muitos já conhecem o processo de seleção das provas de piscina para os Jogos Olímpicos onde existe um índice a ser alcançado em determinadas competições, respeitando o limite de dois atletas por prova para integrar a tão sonhada seleção olímpica brasileira.

Nas maratonas aquáticas a única prova olímpica existente é na distância de 10 km. As provas de 5km e 25 km, presentes nos Campeonatos Mundiais e o revezamento, não integram o programa olímpico apesar de este ser um ponto de discussão no Comitê Olímpico Internacional (COI). Nas provas de 10 km, assim como nas provas de piscina, apenas dois atletas de cada gênero por país podem disputar a competição. Porém, é difícil que dois atletas do mesmo país se classifiquem e mais a frente vocês entenderão o motivo.

O Brasil teve essa honra por duas vezes entre as mulheres. Na primeira edição em que a modalidade participou de uma Olimpíada em Pequim-2008 e na última Olimpíada no Rio-2016. Poliana Okimoto e Ana Marcela Cunha foram as representantes do país. Já no masculino o nosso único atleta a participar dos Jogos foi Allan do Carmo em duas ocasiões: Pequim-2008 e Rio-2016.

Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto – Foto: Satiro Sodre/SSPress

O limite de atletas admitidos pela Federação Internacional de Natação (FINA) na prova olímpica é de 25 atletas por gênero com limite máximo de dois homens e duas mulheres por país. Na última Olimpíada realizada no Rio-2016, os dez primeiros colocados na prova dos 10 km masculina e feminina no Mundial de Esportes Aquáticos de Kazan-2015 foram automaticamente classificados para os Jogos, totalizando dessa forma 20 classificados.

Nos dias 11 e 12 de junho de 2016, na Baía do Sado, em Setúbal, Portugal, aconteceu a Seletiva Olímpica das águas abertas para a definição das 30 vagas restantes, sendo 15 para cada sexo. Dessa forma completariam-se os 50 nadadores classificados para os Jogos.

Porém, apenas países que não tinham atletas classificados puderam enviar seus representantes. No entanto, só foi permitida nessa última seletiva a classificação de um atleta por país. Com isso, os dez primeiros colocados (respeitando o limite de um por país) garantiram vaga nos Jogos Olímpicos e as outras cinco vagas foram distribuídas aos melhores classificados de cada continente, desde que fossem de países que ainda não haviam conquistado a vaga.

Atletas em ação nos Jogos do Rio-2016 – Foto: Reuters

A FINA confirmou os critérios de classificação das maratonas aquáticas para os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 mantendo o mesmo procedimento de classificação utilizado desde a estreia da modalidade no programa olímpico e que foi utilizado para seleção no Rio-2016. Assim, as provas de 10 km masculino e feminino terão 25 nadadores cada e o procedimento de classificação começará no Mundial disputado no ano anterior aos Jogos, neste caso o Mundial de Gwangju-2019.

Os dez primeiros colocados por sexo nos 10 km do Mundial de Gwangju estarão classificados automaticamente para os Jogos de Tóquio. As demais vagas virão da seletiva olímpica a ser realizada em 2020, ainda sem data e local definidos, que vai apurar os nove primeiros colocados com a condição de que não sejam dos países com vagas já preenchidas. Outras cinco vagas são dos melhores nadadores de cada continente (de países que ainda não conquistaram vaga). E haverá mais um vaga para o melhor nadador do país-sede, no caso o Japão, garantindo que todos estejam representados na prova olímpica completando assim os 50 participantes.

A única forma de um país ter dois atletas na prova olímpica feminina e dois atletas na masculina é ter seus quatro nadadores terminando entre os dez primeiros lugares no Mundial de Gwangju, motivo este da dificuldade de tal classificação citado acima no texto.

Atletas em ação nos Jogos de Londres-2012 – Foto: Reprodução

E entre os brasileiros e brasileiras? Como funcionam as seletivas?

Na ala feminina, durante muitos anos tivemos uma hegemonia com Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto. Nossas duas desbravadoras das águas abertas conquistaram muitos títulos inéditos. Com Poliana veio nossa primeira medalha feminina no Mundial de Esportes Aquáticos, em Jogos Pan-Americanos e em Jogos Olímpicos. Além disso, Poliana foi a primeira brasileira campeã do circuito mundial da FINA em 2009. Na sequência, Ana Marcela também colecionou muitos títulos, tendo sido tetracampeã do circuito mundial em 2010, 2012, 2014 e 2018, além de um tricampeonato mundial nos 25 km e detém o recorde de mulher mais vitoriosa do esporte brasileiro em Mundiais com dez pódios.

Sendo assim, pela grande diferença de desempenho destas duas atletas, em relação as demais que participavam do Campeonato Brasileiro, o Conselho Técnico da CBDA na época tomou a decisão de não realizar a seletiva feminina já que ambas se enquadravam nos critérios internacionais para participarem destes campeonatos. Assim, essas atletas puderam fazer uma periodização entre treinos e competições, voltados para os Jogos Olímpicos em busca de melhores resultados.

A seleção brasileira de águas abertas – Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

No ano de 2017, na seletiva para o Mundial de Budapeste, Viviane Jungblut superou Poliana nos 10 km em Foz do Iguaçu. Este tinha sido o primeiro ano, depois de muitos, em que veio ocorrer uma seletiva feminina. A partir dessa ocasião, Viviane conseguiu se classificar para diversas provas internacionais, principalmente etapas do FINA Marathon Swim Series, que lhe deram uma posição no ranking do circuito mundial. Com isso o Conselho Técnico da CBDA definiu que Viviane juntamente com Ana Marcela seriam as representantes do país no Mundial de Gwangju, e por tabela, possivelmente na Olimpíada de Tóquio.

Dentre os atletas masculinos houve uma seletiva nacional definida pela CBDA e realizada em Inema em dezembro do ano passado. Seriam selecionados os quatro primeiros colocados da disputa que viajariam para a primeira etapa da FINA Marathon Swim Series em Doha no início deste ano. Allan do Carmo, Victor Colonese, Diogo Villarinho e Fernando Ponte foram os classificados. Os dois melhores colocados na prova seriam os representantes do país nos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019 e para a prova de 10 km do Mundial de Gwangju, onde poderiam disputar a vaga olímpica.

Ana Marcela Cunha – Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

A importância de se levar 4 nadadores para a etapa de Doha, que foi uma etapa muito prestigiada com a participação de mais de 80 atletas, acabou sendo fundamental para realização a seleção de nossos atletas. E por que? Em uma prova nacional, a estratégia utilizada é totalmente diferente, pela quantidade reduzida de atletas e também pela diferença de ritmo que os nadadores irão encontrar em uma prova como a de Doha. Nadando no Brasil, só teriam esse parâmetro, que é bem diferente do que encontrariam em Doha em relação a ritmo de prova e ao posicionamento dentro de um pelotão.

Pensando nos nossos atletas, essa realidade seria muito mais próxima da que irão encontrar na seletiva olímpica, nadando entre os melhores atletas do mundo. Na prova em Doha, foram selecionados os atletas Allan do Carmo e Victor Colonese que estarão em ação em Gwangju e Lima, sonhando com uma vaga na disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio no ano que vem.

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Águas abertas Catarina Ganzeli Jogos Olímpicos natacao seletiva olímpica Tóquio-2020

Catarina Ganzeli

Nadadora da Unisanta e da seleção brasileira  especialista em ultramaratonas aquáticas

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