25 anos depois: a histórica medalha olímpica de Gustavo Borges

Uma conquista dramática da primeira medalha olímpica do nadador brasileiro

17/07/2017 - Daniel Takata

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Gustavo Borges - Foto: Reprodução
Gustavo Borges - Foto: Evandro Teixeira/AJB

Gustavo Borges - Foto: Evandro Teixeira/AJB

Gustavo Borges - Foto: Reprodução

Ana Marcela Cunha, medalha de bronze nos 10 km, e Fernando Ponte, quinto nos 5 km, foram os grandes destaques dos primeiros dias do Mundial de Esportes Aquáticos, em Budapeste, na Hungria.

Ana Marcela já citou em algumas ocasiões que um de seus ídolos na natação é Gustavo Borges. Um tanto curioso, dada a distância de suas especialidades – ele era velocista, ela nada as provas mais longas da natação.

Também é curioso notar que tanto Ana Marcela quanto Fernando nasceram no ano da graça de 1992. Eram ainda bebês em 28 de julho daquele ano. Portanto, não têm nenhuma memória do que ocorreu naquele dia.

Não tem problema. Hoje iremos recordar com detalhes daquele dia importantíssimo para o esporte e que, podemos dizer, mudou os rumos da natação do Brasil.

Afinal, estamos chegando aos 25 anos da medalha de prata de Gustavo Borges nos 100m livre na Olimpíada de Barcelona. Sua primeira subida no pódio olímpico (ainda viriam mais três até 2000) e que quem presenciou não esquece.

O que ocorreu naquela ocasião muita gente sabe. A vitória do russo Alexander Popov, um bolo de nadadores disputando o segundo lugar, a falha no placar eletrônico que não apontou tempo para Gustavo, a briga do então presidente da CBDA Coaracy Nunes nas revisões das provas por vídeo, a confirmação do segundo lugar, a gloriosa subida ao pódio com a bandeira brasileira nas costas.

Foi a medalha mais importante da minha carreira, sem dúvidas“, relembra hoje um saudoso Gustavo. “Se pudesse eu não teria escolhido o mesmo enredo, mas foi fundamental como um motor propulsor não só para a minha carreira, mas para toda uma geração.”

O que muitos não se recordam, ou não sabem, foi o que antecedeu a prova.

Gustavo não chegou a Barcelona como zebra. Longe disso. Vinha em plena ascensão nos dois anos anteriores. No Troféu Brasil de 1990, aos 18 anos, bateu pela primeira vez o recorde brasileiro dos 100m livre com 51s19, superando uma marca de oito anos de Jorge Fernandes. No Troféu Brasil de 1990, aos 18 anos, aproximou-se do recorde brasileiro dos 100m livre com 51s57, 27 centésimos acima da marca de oito anos de Jorge Fernandes (obrigado Renato Cordani!) Mas foi no Troféu José Finkel do mesmo ano, ao marcar 48s59 em piscina de 25 metros, superando o recorde nacional de Fernando Magalhães em mais de dois segundos, que, pela primeira vez, a comunidade aquática brasileira percebeu que estava diante de um possível fenômeno.

No Mundial de Perth, em 1991, fez 50s77, melhorou o recorde nacional e se aproximou da marca sul-americana do venezuelano Alberto Mestre, de 50s46. “Minha marca na longa ainda não condizia com aquele 48s59 na curta, mas já esperava nadar abaixo de 51s”, lembra Gustavo. “Considero aquela competição um marco para mim, pois me deu a motivação e a experiência para chegar com tudo ao Pan-Americano meses depois, que seria um evento de extrema importância.”

E que importância. No referido Pan-Americano de Havana, fez o excepcional tempo de 49s48. Baixava um segundo do recorde continental de Mestre (que já havia sido baixado por Gustavo na eliminatória da prova com 50s21) e se colocava entre os melhores do mundo. “Foi ali que tive a real noção que poderia brigar por uma medalha olímpica em 1992.

Na época, pouquíssimos nadadores completavam a prova abaixo de 50s. Terminou o ano na quarta posição no ranking mundial, atrás do americano Matt Biondi, do russo Alexander Popov e do francês Stephan Caron, todos com a mesma marca de 49s18, conseguidas em competições diferentes.

É bom que se lembre que, à época, Biondi já era uma lenda. Havia conquistado sete medalhas (cinco de ouro) na Olimpíada de Seul, em 1988. Apenas Mark Spitz havia subido tantas vezes no pódio anteriormente em uma edição olímpica. Em 1992, Biondi era o Michael Phelps de seu tempo.

Mas isso não preocupava Gustavo. “Eram outros tempos. Biondi havia vencido os 100m livre em 1988, e Caron havia sido bronze. A gente olhava para aqueles eles e dizia, ‘o que esses velhos estão fazendo aqui?’ Na época, 26 anos, ao contrário de hoje, era uma idade considerada avançada na natação. Eles estavam meio que na prorrogação da carreira. A gente respeitava o Biondi, mas não se intimidava com ele de forma alguma.”

Gustavo chegou a Barcelona como a maior esperança de medalha da natação brasileira. E isso em uma época em que medalhas não saiam a granel para o esporte do país. Lembre-se que, ao final daquela Olimpíada, seriam apenas três: Gustavo na natação, Rogerio Sampaio no judô e equipe de vôlei masculina. “Existia uma pressão. Não considero algo exagerado e era bem diferente do que é hoje, em que você, se não tiver cuidado, até de certo modo busca a pressão nas redes sociais. Mas tinha pressão sim.”

Em sua primeira prova, Gustavo acusou o golpe. Nadaria os 200m livre, prova em que terminara com a prata no Pan de Havana, um ano antes. Alardeado pela imprensa (“Gustavo Borges mergulha para a medalha nos 200m”, era a manchete do O Globo), terminou com o tempo de 1min51s42. Mais de dois segundos acima de sua melhor marca.

Foi a prova em que eu descarreguei toda a pressão, toda a ansiedade de nadar minha primeira Olimpíada. toda a energia negativa. Estava muito nervoso. Não dormi direito na noite anterior à prova, acordava toda hora para ir ao banheiro. E na hora da prova quis mudar a estratégia, quis passar mais forte e acabei cansando.” E dá o recado aos mais jovens: “Não faça nada do que você não tenha feito e treinado antes. Se você quer criar algo novo em um momento que você está sem confiança e ansioso, as chances de dar errado são muito grandes. E foi isso que aconteceu. Foi uma das piores provas de minha vida.” Crianças, não façam isso em casa.

Muitas dúvidas surgiram na cabeça dos que assistiram àquela prova. Estaria Gustavo mal? Não acertou o polimento? Sucumbiria à pressão nos 100m livre?

Muitos tinham dúvidas. Exceto o próprio Gustavo. “Em nenhum momento passou pela minha cabeça que eu estava mal. Sempre nadei de forma mais regular os 100m do que os 200m. Foi assim por toda minha carreira. Nos 200m, se não acertasse a prova, como aconteceu, podia piorar muito. Nos 100m, mesmo que não nadasse bem, aumentaria somente uns três décimos do meu tempo. Tinha muita confiança nos 100m. Sabia que estava bem treinado e que estaria na briga.”

Após ter um melhor desempenho no revezamento 4x200m livre, dormiu como uma pedra na noite que antecedeu os 100m livre. E chegou para a prova com “sangue nos olhos”, em suas palavras. Nadou a última série eliminatória, ao lado do então campeão Matt Biondi e do ascendente russo Alexander Popov. Terminou em 49s49, apenas um centésimo acima de seu recorde sul-americano. Segundo melhor tempo de classificação, atrás apenas do 49s29 de Popov. Se havia alguma dúvida sobre sua forma, foi dissipada naquele momento.

E nadar na mesma série de Biondi e Popov foi fundamental para saber o que esperar da final olímpica. “Percebi que o Biondi passou muito forte e morreu no final. Quando um cara como ele passa os primeiros 50 metros desesperado do jeito que ele fez, é porque não estava com muita confiança e não estava bem fisicamente. Era isso que eu deveria esperar dele também na final, sabia que ia pegar ele no final. Também sabia, por outro lado, que o Popov ia passar um pouco atrás e teria um bom final de prova.”

Às 18h28 daquele 28 de julho, os nadadores mergulharam para a final dos 100m livre. E que se configuraria na disputa mais polêmica daquela Olimpíada.

Conforme Gustavo previra, Biondi percorreu a primeira metade da prova em ritmo fortíssimo, 23s30, três centésimos mais rápido que sua parcial do recorde mundial. Isso não abalou o brasileiro, que virou na segunda posição com 23s81. E, como ele também esperava, Popov era apenas o quinto, com 24s03.

Na volta, o russo mostrou sua segunda parcial explosiva: com 24s99, foi o primeiro nadador da história a completar os segundos 50 metros abaixo de 25 segundos. Naturalmente a combinação lhe rendeu uma vitória clara, com 49s02.

Entre o segundo e o quinto lugares, a disputa foi acirradíssima nos últimos metros. Gustavo tocou a placa de chegada e teve a nítida impressão de ter chegado à frente de Biondi, que nadava ao seu lado. Virou-se para ver o resultado no placar eletrônico, certo de que havia tocado entre os três primeiros. Um a um, os tempos dos nadadores foram aparecendo: Alexander Popov 49s02, Stephan Caron 49s50, Jon Olsen 49s51, Matt Biondi 49s53, Tom Werner 49s63, Christian Troger 49s84, Gennadi Prigoda 50s25… algum tempo depois, seu tempo apareceu em oitavo lugar, com o absurdo tempo de 1min02s04.

Algo obviamente estava errado com o sistema eletrônico da Seiko que aferiu o tempo a Gustavo. Logo, um dos árbitros, o holandês Klaas van de Pol, requisitou uma checagem do resultado da prova pelas câmeras de alta tecnologia, capazes de filmarem a 200 quadros por segundo.

Foi quando um novo tempo foi estabelecido para Gustavo: 49s53, quarto lugar.

“Nesse momento, foi uma decepção. Fui para a piscina de apoio e desandei a chorar“, lembra Gustavo, em uma imagem que ainda está presente no imaginário de quem acompanhou todo aquele drama pela televisão. Ele não sabia que Coaracy Nunes não deixaria o árbitro holandês em paz até uma nova revisão.

Foi quando foi descoberto que, apesar de van de Pol ter solicitado o vídeo referente à raia 5, de Gustavo, os técnicos em computação lhe apontaram a raia 6, de Biondi. Foi daí que concluíram por um empate em quarto lugar, com mesmo tempo para os nadadores. Após a verificação da raia correta, chegaram a conclusão que o tempo de Gustavo havia sido 49s40.

Gustavo estava cabisbaixo e decepcionado, sentado ao lado da piscina vazia, lamentando a perda da medalha, sem saber o que se desenrolava nos bastidores. Mas já era chamado pelo sistema de alto-falantes para a cerimônia de premiação. Em seu isolamento, Gustavo nada escutava. “Imagina se eu tivesse ido embora. A premiação teria que ser igual à maratona do atletismo, só no dia seguinte!”

Foi quando foi encontrado por Coaracy e seu técnico na Universidade de Michigan, Jon Urbanchek, que lhe avisaram do resultado. Ainda haveria uma nova revisão de seu tempo, três minutos depois, chegando por fim à marca definitiva: 49s43, novo recorde sul-americano.

Ainda entorpecido e com os sentimentos confusos, Gustavo Borges subiu descalço ao pódio olímpico e recebeu a medalha de prata de Mustapha Larfoui, então presidente da FINA.

Naquela noite, assim como na noite anterior à sua estreia olímpica, Gustavo não dormiu. Mas por um motivo totalmente diferente. Não fez festa, afinal ainda teria duas provas para nadar (revezamento 4x100m livre e 50m livre). Mas sabia que sua missão em Barcelona estava cumprida.

Um fato curioso. Após a Olimpíada, Gustavo, Rogerio Romero e Teófilo Ferreira viajaram para passar alguns dias em Londres. Quando fizeram conexão em Paris, Gustavo foi interpelado por uma moça. “Você é o Gustavo Borges?” “Sou sim”, respondeu o brasileiro, orgulhoso de ter sido reconhecido na França. “Prazer, eu sou namorada do Stephan Caron (o nadador francês que foi medalha de bronze). Eu queria saber se você realmente bateu a mão no placar.” Gustavo respondeu educadamente à estranha pergunta para a moça que certamente ainda queria entender o que se passara. “Nunca na história da natação eu vi alguém que não tenha batido a mão no placar na chegada”, lembra hoje Gustavo. “Será que ela pensou que eu fingi que bati a mão para iludir a arbitragem?” E os três nadadores saíram dando risada da situação inusitada.

Pode-se dizer que a medalha representou o início de uma nova era na natação brasileira. Foi fundamental para a renovação de patrocínio dos Correios, que havia assinado com a CBDA pela primeira vez em 1989, e que se mantém até hoje como principal apoiador dos esportes aquáticos do Brasil, um incentivo fundamental para as conquistas que se sucederam.

Dias depois, Gustavo ainda não tinha noção completa do que aquela medalha significaria. E ainda hoje fica surpreso com a repercussão. “Às vezes encontro alguém na rua que vem me dizer que começou a nadar por causa daquela medalha. Fico muito feliz com isso até hoje.

De fato, até nadadores que nasceram exatamente naquele ano, e que portanto não vivenciaram aquela conquista, têm Gustavo como grande ídolo. Como Ana Marcela Cunha e Fernando Ponte. “Acho isso muito louco. Realmente a medalha teve uma dimensão muito grande.”

Ainda viriam mais três medalhas olímpicas, medalhas em mundiais, recordes mundiais. Mas aquela conquista em Barcelona estará para sempre marcada não só no coração de Gustavo, como da natação brasileira.

Daniel Takata

Redator da SWIM CHANNEL.