Tom Blower: o primeiro a atravessar a nado o Canal do Norte

Britânico concluiu com sucesso a travessia entre a Escócia e a Irlanda do Norte em 1947 enfrentando muitas adversidades

02/07/2020 - Katarine Monteiro

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Tom Blower - Foto: Raymond Kleboe/Getty Images
Tom Blower - Foto: Reprodução

Tom Blower - Foto: Reprodução

Tom Blower - Foto: Raymond Kleboe/Getty Images

O britânico Tom Blower foi o primeiro a completar a nado a Travessia do Canal do Norte, entre a Escócia e a Irlanda do Norte. A prova é considerada até hoje como uma das mais desafiadoras do mundo por conta da água do Canal que é conhecida por ter baixas temperaturas e por, no verão, ficar cheia de águas-vivas.

Nascido na cidade de Nottingham em 1914, Tom Blower serviu a marinha real britânica na II Guerra Mundial e durante um combate teve que nadar em pleno Oceano Atlântico para tentar salvar um sobrevivente de um ataque a bomba e recebeu uma medalha de bravura por isso. Notícias da época contam que ele tinha a capacidade de ficar em pé ou deitado na água sem mover um músculo.

Em 1937 ele já havia nadado no Canal da Mancha, tendo conseguido atravessar o Canal em 13 horas e 29 minutos. Após a guerra, ele se interessou em atravessar o temido Canal do Norte. Sua primeira tentativa foi no início do verão de 1947, mas a travessia foi cancelada quando a água ficou tão áspera que as tripulações não conseguiram controlar os barcos que o acompanhavam. Já no dia 27 de julho de 1947 realizou sua segunda tentativa e completou a prova em 15 horas e 26 minutos.

Blower após a travessia – Foto: Reprodução

No dia da prova havia a previsão de 15 horas para que Tom completasse o desafio. “O mar parecia suave, mas era uma espécie de suavidade viscosa e o céu estava muito vermelho”, lembrou sua esposa Clarice Blower.  Já era noite quando ele se afastava com temperatura média da água em congelantes 9º C. Um observador da Associação Irlandesa de Natação, que o acompanhou na água por uma hora, teve tanto frio que teve que descongelar os pés com um cobertor.

Além das águas-vivas, ele teve que enfrentar outros desafios. Na manhã seguinte ao início da prova, a Escócia foi atingida por uma das maiores tempestades do país. Ruas foram inundadas, pontes varridas, flores e colheitas destruídas. No mar, foram necessários dois homens para segurar o fogão em que Clarice cozinhava comida para o marido. Era impossível alcançá-lo com a comida, em um momento começou a chover granizo e cair pedaços duros de gelo.

Alguns queriam tirar Blower da água, mas sua esposa, obedecendo às instruções dele, não os permitiu. Em um momento da prova, ele nadou por quatro horas sem fazer uma milha. Enquanto nadava em uma pequena enseada escocesa, o céu começou a clarear.

Ele saiu agonizantemente da água para as rochas e levantou as mãos. “Não posso contar a ninguém como me senti. Estive todo o caminho com ele em minha mente e apenas caí em lágrimas de alegria quando ele terminou. Mas quando olhei em volta, todo mundo estava chorando, 21 homens e eu, apenas uma mulher”, disse Clarice. Em sua cidade natal Nottingham, o prefeito interrompeu uma reunião do conselho da cidade para contar aos membros da façanha de Blower.

Tom Blower quando atravessou o Canal da Mancha – Foto: AP Photo

Quando Blower chegou mancando em Portpatrick, o primeiro homem a apertar sua mão foi um policial escocês. “Você é o primeiro a fazê-lo, rapaz”, disse ele. “E você será o último”, completou. Blower nadou mais duas vezes o Canal da Mancha (1948 e 1951) e trabalhou como representante de publicidade de um fabricante de cigarros em Nottingham. Em 1955, aos 41 anos, ele morreu repentinamente de um ataque cardíaco em sua casa.

O Desafio foi considerado, por muito tempo, uma prova impossível de ser feita. Florence Chadwick fez duas tentativas malsucedidas em 1957 e outra em 1960. Um grego, Jason Zirganos, morreu após uma tentativa em 1959. Mercedes Gleitz, primeira mulher a cruzar o Estreito de Gibraltar, fez várias tentativas, mas nunca conseguiu repetir a façanha de Blower. Apenas em 1988 a britânica Alison Streeter tornou-se a primeira mulher a completar a travessia.

Ao longo dos anos, houve muitas provas solo de sucesso e também de revezamentos. Até hoje nenhum brasileiro conseguiu atravessar o Canal do Norte. Adherbal Oliveira tentou realizar a prova em 2018, mas teve que abandonar a travessia devido a uma hipotermia.

Katarine Monteiro

Jornalista da SWIM CHANNEL.