O legado de Alexander Dale Oen (1985-2012)

Morto precocemente aos 26 anos, Dale Oen influenciou diretamente a evolução do nado de peito até hoje

27/04/2017 - Daniel Takata

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Há exatos cinco anos, falecia Alexander Dale Oen.

O nadador norueguês, campeão mundial dos 100m peito em 2011, vice-campeão olímpico em 2008 e um dos favoritos à medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2012, foi encontrado morto em seu quarto de hotel no dia 30 de abril de 2012, após um treinamento em Flagstaff, nos Estados Unidos, onde a seleção de seu país realizava treinos em altitude.

A autópsia revelou que o nadador tinha uma doença no coração chamada aterosclerose, condição que pode levar ao bloqueio das artérias.

A morte comoveu a comunidade aquática. A final olímpica dos 100m peito em Londres, realizada três meses após sua morte, foi carregada de emoção. O sul-africano Cameron van der Burgh, vencedor da prova, apontou para o céu após a prova, em clara referência ao norueguês, de quem era grande amigo.

Os pais de van der Burgh e Dale Oen assistiram à final lado a lado, nas arquibancadas do Centro Aquático Olímpico.

No final do ano, o húngaro Daniel Gyurta, vencedor dos 200m peito, entregou à família de Dale Oen uma réplica de sua medalha de ouro olímpica.

E lá se vão cinco anos. As conquistas de Dale Oen, primeiro nadador norueguês medalhista olímpico, seriam suficientes para que ele seja lembrado para sempre.

A homenagem que fez ao receber sua medalha de ouro no Mundial de Xangai, em 2011, aos mortos em um atentado terrorista na Noruega dias antes, também é razão para que ele jamais seja esquecido.

Mas há outro motivo. E que influencia diretamente a evolução do nado de peito até hoje.

Contra a corrente

Entre 2003 e 2008, o japonês Kosuke Kitajima e o americano Brendan Hansen disputaram de forma acirrada a hegemonia dos 100m peito.

À primeira vista, não era difícil identificar a eficiência do estilo dos dois nadadores, aproveitando ao máximo o deslize e mantendo um nado alongado e eficiente.

Em suas melhores provas, o número de braçadas dos dois nadadores não ultrapassava 40. 38-39 era o mais comum.

Nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, Kitajima chegou ao ápice de vencer a prova em 36 braçadas. Ajudado, obviamente, por um traje tecnológico que contribuía no deslize e que foi febre entre 2008 e 2009.

Na época o estilo do japonês era visto como exemplo de eficiência. Muitos queriam nadar como ele.

Mas não o atleta que terminou na segunda posição aquela prova. Seu nome: Alexander Dale Oen.

Três anos depois, quando o norueguês terminou a prova no Mundial de 2011 como campeão, viu-se um estilo bem diferente daquele de Kitajima. Com bem menos deslize, mais “picado”, com maior frequência de braçadas.

Foram 43 braçadas para vencer a prova. Um choque de estilos na comparação com o japonês, que nadava na raia ao seu lado.

Inspirando campeões

Quem também estava naquela prova era Cameron van der Burgh.

Apesar de ser velocista nato, exímio nadador de 50m – ao contrário de Kitajima, nadador de 200m -, o sul-africano tentava copiar a eficiência do japonês. Nadou a prova em 38 braçadas e terminou na terceira posição.

Ao retornar aos treinamentos, van der Burgh sentou-se com seu técnico Dick Langer e resolveu fazer ajustes em sua prova.

Após analisar detalhadamente o modo de nadar de Dale Oen, chegou à conclusão de que deveria copiar o norueguês, ao invés de se inspirar em Kitajima.

Para aproveitar melhor sua velocidade, deveria aumentar sua frequência de nado, o que maximizaria seu potencial.

Resultado: um ano depois, na final olímpica, nadou os 100m em 42 braçadas – quatro a mais do que em Xangai, em uma prova parecida com a de Dale Oen. Conquistou a medalha de ouro olímpica e bateu o recorde mundial.

Dale Oen, se estivesse lá, teria nadado a prova no mesmo padrão. Seria um adversário duro. Todos sabiam disso. E, por isso, recebeu todas as homenagens.

O norueguês, portanto, teve influência direta no estilo e no desempenho do campeão olímpico de 2012.

E, pouco tempo depois, seguindo a mesma tendência, surgiu um britânico chamado Adam Peaty.

Os dias de Kitajima haviam ficado para trás. O modo mais eficiente de nadar os 100m peito agora era o adotado por Dale Oen e van der Burgh. Melanie Marshall, a treinadora de Peaty, sabia disso. E o levou ao extremo com seu pupilo.

Resultado: ao superar recordes mundiais em 2015 e 2016, Peaty nadou suas provas em um número incrível de 46 braçadas.

Um exemplo de como desenvolver o estilo para aproveitar ao máximo a velocidade.

O britânico é o nadador mais dominante na atualidade no masculino em uma prova. Seu recorde mundial é mais de um segundo mais rápido que o tempo do nadador mais próximo.

E talvez não tivesse alcançado o mesmo patamar se um norueguês, em 2011, não tivesse servido de inspiração na maneira como se nadar os 100m peito.

O esporte está em constante evolução. E ele teve papel fundamental na evolução recente dessa prova.

Vida longa a Alexander Dale Oen!

O texto abaixo foi publicado no dia da morte de Dale Oen, em 2012. Uma homenagem ao maior nadador da historia da Noruega.

Alexander Dale Oen (1985-2012)

Alexander Dale Oen, fantástico nadador norueguês, um dos maiores destaques de 2011, está morto. E isso é especialmente tocante por ter acontecido com um nadador que conquistou seu maior título, há menos de um ano, à sombra da morte.

Nos dias que antecederam o Campeonato Mundial do ano passado, em Xangai, 76 pessoas foram mortas na Noruega pelo fanático político Anders Behring Breivik. Dale Oen, compreensivelmente, ficou terrivelmente abalado pelo acontecimento. Na ocasião, ele admitiu que muitas vezes não conseguia se concentrar na competição.

De alguma forma, ele encontrou forças para vencer os 100m peito, com o melhor tempo da história pós-trajes (58s71). Sua parcial nos primeiros 50 metros foi inacreditável: 27s20, a melhor passagem da história, melhor inclusive que seu próprio tempo na prova de 50m, quase meio segundo mais rápido que a passagem do recorde mundial obtido com um traje tecnológico. Questionado sobre isso, respondeu: “Eu poderia ter batido o recorde mundial se minha prova tivesse sido mais equilibrada, se eu tivesse passado para 27s5 ou 27s6. Mas nadei a prova com meu coração, e não de modo estratégico como deveria ter nadado. Foi muito emocional. Nadei pelo meu Rei, pelo meu país e por nossas pessoas que precisam de amor e apoio.”

No pódio, sua emoção era nítida. Seus olhos marejados tinham razão de ser. “Pensei nas pessoas do meu país quando vi a bandeira e ouvi o hino nacional. O que aconteceu foi chocante. Espero que meus resultados sirvam de conforto. Voltarei ao meu país para oferecer apoio após o campeonato”.

“A vida é maior que a natação. O que aconteceu foi terrível, e certamente coloca as coisas em perspectiva”, disse ele na ocasião. Sua declaração também serve perfeitamente para descrever os sentimentos gerados por sua morte, ocorrida ontem devido a um mal súbito logo após um treinamento com a equipe norueguesa, em Flagstaff, nos Estados Unidos.

Primeiro nadador norueguês medalhista olímpico (prata em 2008) e único campeão mundial, ele era um herói em seu país. No entanto, o final perfeito – a medalha de ouro olímpica – não fará parte de sua história. Quando os oito finalistas dos 100m peito estiverem alinhados atrás dos blocos nos Jogos Olímpicos de Londres, ele certamente será lembrado. Ele fez o que amava até o último instante.

A vida é maior que a natação. Mas a natação era sua vida.

 

Daniel Takata

Redator da SWIM CHANNEL.