A melhor prova da natação feminina em Mundiais

Os 200m livre em Melbourne-2007 foram cheios de reviravoltas e novos recordes mundiais

22/06/2017

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Na segunda-feira, trouxemos com detalhes a história da melhor prova da natação masculina de todos os tempos em Campeonatos Mundiais de Esportes Aquáticos, os 100m borboleta de 2003 (clique aqui para conferir).

Hoje, é a vez de saber qual é a melhor prova feminina dos Mundiais.

E vamos a ela, sem mais delongas: os 200m livre do Mundial de Melbourne, em 2007.

Que, para início de conversa, teve um duelo que se tornaria clássico, dentro e fora das piscinas: Laure Manaudou x Federica Pellegrini.

Mas a prova envolveu muito mais que a disputa entre as duas sensações da natação da época.

O recorde mundial da prova pertencia desde 1994 à alemã Franziska van Almsick. Na ocasião, no Mundial de Roma, ela havia vencido a prova com 1min56s78. Em 2002, abaixou ainda mais seu tempo, com 1min56s64.

Em 12 anos nenhuma nadadora além de Almsick ameaçou o recorde. Até que, em novembro de 2006, no Campeonato Alemão, Annika Lurz marcou 1min56s73, o segundo melhor tempo da história, e pela primeira vez o recorde de van Almsick ficou a perigo.

Desde 1984 a marca mundial da prova era detida por alemãs, e com a ascensão de Lurz parecia que a hegemonia tedesca na prova continuaria.

Ela chegaria ao Mundial de Melbourne, em 2007, como favorita. Mas havia algumas concorrentes à altura.

A mais próxima era a polonesa Otylia Jedrzejczak, então campeã olímpica dos 200m borboleta. Em 2006, derrotara Lurz no Campeonato Europeu de Budapeste. Seu tempo de 1min57s15 a credenciava para brigar pelo ouro.

Um pouco defasadas estavam a francesa Laure Manaudou, que em 2006 bateu o lendário recorde mundial dos 400m livre de Janet Evans de 1988, e a italiana Federica Pellegrini, vice-campeã olímpica da prova.

Defasadas porque tinham como melhores marcas 1min57s81 e 1min57s92, respectivamente.

Mas tudo mudaria em Melbourne.

Na eliminatória da prova, Manaudou fez a melhor marca de sua vida: 1min57s66.

Mas as águas tremeram verdadeiramente pela primeira vez na semifinal.

Na primeira série, a americana Katie Hoff superou o recorde nacional de seu país, com 1min57s29.

Apenas para dar um gostinho do que aconteceria logo depois.

Na segunda série, quem saiu tomando a iniciativa foi Lurz. Liderava até um pouco antes dos 150m, em parcial de recorde mundial, quando foi superada por Pellegrini.

Em um final matador, a italiana terminou em 1min56s47, superando em 17 centésimos o recorde mundial de van Almsick.

Ao ver seu tempo no placar, desabou em lágrimas.

Lurz também fizera uma prova excepcional: 1min56s67, apenas três centésimos acima do antigo recorde.

E o saldo daquela semifinal foi: um recorde mundial, a 3ª posição no ranking all time da prova (Lurz), a 8ª (Hoff) e a 9ª (Manaudou, com 1min57s30).

A expectativa era alta para a final. Do duelo entre Pellegrini e Lurz, o recorde poderia cair mais uma vez.

Poucos achavam que a medalha de ouro poderia ir para outra nadadora.

Mas Manaudou tinha outros planos. E, tendo melhorado sua marca tanto na eliminatória quanto na semifinal, era difícil acreditar que ela estivesse escondendo tanto o jogo.

Pois estava. Afinal, nadara a final dos 100m costas, em que terminou com a medalha de prata, minutos antes da semifinal dos 200m livre.

E, na final, deu mostras do que era capaz já nos primeiros 100m, ao virar para 56s24, mais de 80 centésimos abaixo da parcial do recorde anotado por Pellegrini um dia antes.

Aos 150m, a diferença para a parcial do recorde já era de mais de um segundo.

E, com o ritmo forte, a francesa puxava Lurz, que a perseguia freneticamente.

O público teve que olhar algumas vezes o placar ao final da prova para entender o que havia acontecido: ouro para Manaudou com 1min55s52, prata para Lurz com 1min55s68.

A francesa acabava de tirar quase um segundo do recorde de Pellegrini, e 1s12 do recorde que estava vigente até o início do Mundial.

Lurz também nadara de maneira inacreditável, ao chegar muito próxima de Manaudou e nadar quase um segundo abaixo do antigo recorde.

O final só não foi feliz para Pellegrini, que com 1min56s97 terminou com o bronze.

Na quarta posição, Katie Hoff, com 1min57s09, novo recorde americano.

E os 200m livre feminino saiam de Melbourne com os três melhores tempos da história da prova, todos obtidos por nadadoras diferentes.

Nem na época dos trajes tecnológicos, em 2008-2009, se viu algo assim.

Aquele foi o primeiro capítulo da rivalidade entre Manaudou e Pellegrini, que se estendeu para fora das piscinas.

Ainda naquele ano, se envolveriam em uma polêmica fora das piscinas com o nadador Luca Marin, que namorava a francesa na época do Mundial de Melbourne e logo depois a trocou pela italiana.

Quando Pellegrini bateu o recorde mundial dos 400m livre de Manaudou, nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, a francesa disse que preferia que outra nadadora tivesse superado o recorde.

Em 2014, Manaudou lançou sua autobiografia, na qual tecia ferozes críticas à rival. A italiana respondeu à altura através das redes sociais.

À parte das baixarias fora das piscinas, ambas estão entre as lendas da natação – Manaudou foi campeã olímpica dos 400m livre em 2004 e Pellegrini, campeã olímpica dos 200m livre em 2008.

Por isso, hoje, vendo no que a rivalidade das duas nadadoras se tornou, aquela prova de Melbourne adquire uma relevância ainda maior.

Já Lurz não teve o mesmo destino das rivais. A nadadora que chegou ao Mundial de 2007 como a principal candidata a quebrar o recorde mundial jamais voltaria à grande forma, e jamais retornaria ao pódio em grandes competições internacionais.

Mas pode se orgulhar de ter sido protagonista da melhor prova feminina da história dos Campeonatos Mundiais.