Entre desavenças, Kosovo ‘encara’ solo russo

05/08/2015

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São 5h de estrada para chegar à divisa de federações para conseguir uma piscina para treinar. Diariamente. Na difícil vida de um país que até sete anos atrás sequer era considerado uma nação de verdade, ser atleta é quase um luxo. Após anos de guerras civis, bombardeios, e destruição, o Kosovo recebeu o reconhecimento de parte dos outros países como uma federação apenas em 2008 – e não de todos. Como a Rússia, que recebe o Mundial de Esportes Aquáticos. Evento do qual o país dos bálcãs, de cerca de 2 milhões de habitantes, participa pela primeira vez na história da natação mundial.

São quatro representantes, dois homens, e duas mulheres: Flaka Pruthi, Rita Zeqiri, Lum Zhaveli e Meriton Veliu. Um sonho em comum: chegar pela primeira vez aos Jogos Olímpicos. Flaka, de 16 anos, treina desde os 6. Mas não em seu país: “Temos que procurar outros treinadores, em outros países. Eu vou pra Albânia, outros vão para a Bulgária, por exemplo. É necessário se sacrificar para ser um bom nadador”. Ela disputou os 100m costas e terminou apenas na 63ª posição, com 1m14s29.

Sua colega, Rita Zeqiri, de 20 anos, é a maior nadadora do Kosovo, sete vezes campeã local e, graças a seu talento e paixão pelo esporte, mobilizou uma grande movimentação financeira do pai. “A piscina que tínhamos era de 17m, mas foi fechada. Então tivemos que começar a ir para Albânia ou Macedônia para treinar, mas era uma viagem muito difícil. Meu pai resolveu construir uma piscina em casa, onde nadei por 4 anos. Mas agora temos uma piscina de 25m, um clube e uma equipe grande, com mais de 200 nadadores”, contou Rita, que terminou os 50m costas na 46ª posição (33s65), e lamentou não ter feito seu melhor tempo. “Não nadei tão bem desta vez, meu estava muito emocionada de estar aqui. Eu preciso melhorar muito, pois meu objetivo são os Jogos Olímpicos. Depois disso, talvez, eu até pare de nadar”.

Além de toda a dificuldade de estar em Mundial pela primeira vez (o Kosovo se filiou à Fina apenas em fevereiro deste ano), a relação estremecida (na verdade quase inexistente) do jovem país com a Rússia era motivo de grande preocupação entre os atletas. Sob a pressão do presidente russo Vladimir Putin, a judoca bicampeã mundial Majlinda Kelmendi já foi proibida de participar de uma Copa do Mundo no país como representante do Kosovo. Ela foi obrigada a lutar com a bandeira da federação internacional de judô.

“É minha primeira vez em um Mundial, fiquei muito emotiva e feliz. É também minha primeira vez na Rússia, eu achava que não poderíamos estar aqui. Mas então percebi que estava, e com o passaporte da República do Kosovo em mãos. É uma sensação incrível”, comemorou Rita. O Kosovo ganhou reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional em dezembro de 2014, e espera levar ao menos 10 atletas para o Rio em 2016. Além de Majlinda no judô, carro chefe dos esportes do país, Rita e Lum Zhaveli também são espécie de “ídolos” nacionais, os melhores nadadores. E Flaka vê ainda uma brecha, uma oportunidade de chegar lá.

“Eu nado há dez anos, e há cinco eu treino pra valer. Eu quero ser uma campeã de natação. Estou treinando para os Jogos Olímpicos”, completou. Já Rita, além do desejo esportivo e da realização de seus sonhos, voa ainda mais alto. “Esportes deveriam ser separados da política. O esporte nos mantêm unidos. O importante é estarmos aqui. Por que não? Tenho grande orgulho de representar o Kosovo”. Talvez, sem nem se dar conta, Flaka, Rita, Lum e Meriton fizeram história para o Kosovo. E, acima de tudo, fizeram muito pelo esporte.

Por Mayra Siqueira

A equipe Swim Channel no Mundial de Kazan é patrocinada pela Finis, a melhor tecnologia para natação.

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