França, país das águas abertas?

15/07/2017

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Por anos, a natação francesa foi conhecida por seus exímios velocistas.

Está certo, no feminino tivemos Laure Manaudou e Camille Muffat, que brilharam nos 200m e 400m livre e conquistaram ouros olímpicos e vitórias internacionais.

Mas qualidade e quantidade costumávamos ver nas provas de 50m e 100m livre masculinas.

De 2008 a 2016, não houve nenhuma Olimpíada ou Campeonato Mundial sem que França subisse ao pódio em pelo menos uma prova de velocidade entre os homens no nado livre (50m, 100m e revezamento 4x100m).

E, muitas vezes, no lugar mais alto. Os auges foram os ouros olímpicos de Alain Bernard nos 100m livre em 2008 e de Florent Manaudou nos 50m e revezamento 4x100m livre em 2012.

O cenário parecia que se repetiria em 2016. Manaudou e revezamento eram franco favoritos. Mas não corresponderam às expectativas, e o país deixou as piscinas olímpicas do Rio de Janeiro com apenas uma medalha de prata, de Manaudou nos 50m livre.

E o cenário para o Mundial de Budapeste não é animador. Sem Manaudou, a França chega pela primeira vez em uma década sem grandes concorrentes a medalhas nas provas de velocidade.

Mesmo o outrora poderoso revezamento 4x100m livre está enfraquecido e se subir no pódio será surpresa.

Se a velocidade francesa vai mal, o outro extremo, nas provas de águas abertas, as provas mais longas da natação, vai bem. Muito bem.

Marc-Antoine Olivier e sua medalha de ouro (foto: AFP)

Marc-Antoine Olivier e sua medalha de ouro (foto: AFP)

A vitória de Marc-Antoine Olivier nos 5km hoje, na prova inaugural da modalidade no Mundial de Budapeste, é a segunda da história do país em Mundiais em provas de águas abertas. A outra havia sido no Mundial passado, com Aurélie Muller, na prova de 10km feminina.

No ano passado, Olivier foi bronze olímpico nos 10km. Muller, por sua vez, brigou até o final e até terminou a prova olímpica na segunda colocação, mas foi desclassificada. Mas também provou estar entre as mais rápidas do mundo.

Qual o segredo do sucesso, afinal?

Stéphane Lecat foi um ex-nadadador que conseguiu a primeira medalha francesa em águas abertas em Mundiais, em 2001, na prova de 25km (junto com seu compatriota Stéphane Gomez, prata na mesma prova). E justamente ele assumiu o cargo de treinador da seleção do país em 2013.

Desde então, adotou uma metodologia profissional para identificar potenciais grandes nadadores de provas de 10km – sim, a distância olímpica. Ele enfatiza nessa entrevista que o foco total do trabalho é nessa distância, e os 5km e os 25km vêm como bônus.

Lecat defende que um nadador de nível mundial de 10km deve nadar os 1500m livre perto dos 15 minutos no masculino e de 16min15s no feminino. Há reuniões periódicas com treinadores franceses e os nadadores passam por avaliações constantes, com metas de tempo para os Jogos Olímpicos.

Em 2013, nenhum nadador atingiu as metas mais exigentes. Até 2016, haviam sido apenas dois: justamente Muller e Olivier. Mas o progresso é visível. Tanto que a França tem, entre seus jovens talentos, Logan Fontaine (campeão mundial júnior e europeu em 2016) e Océane Cassignol (vice-campeão mundial júnior de 2016).

Philippe Lucas (foto: reprodução/YouTube)

Philippe Lucas (foto: reprodução/YouTube)

E, claro, Lecat destaca o excelente trabalho do já consagrado treinador Philippe Lucas, que trabalha com Muller e Olivier – e, como se não bastasse, treina também a holandesa Sharon van Rouwendaal, a atual campeã olímpica dos 10km.

Tudo bem que a França não tem os dois campeões olímpicos de águas abertas como a Holanda e nem a quantidade de medalhistas em Mundiais como a Itália, que hoje fez o vice-campeão mundial Mario Sanzullo. Mas a evolução tem sido notável.

Por muitos anos, o país foi uma referência da velocidade nas piscinas. Pelo jeito o jogo está virando, e provavelmente ainda vamos falar ouvir muito dos franceses nas águas abertas nos próximos anos.

Por Daniel Takata

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