Húngaro de respeito

26/07/2017

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Não é qualquer atleta que consegue o respeito e o carinho não só de seu público, mas de seus adversários. Ao terminar a prova dos 200m borboleta em Budapeste, um dos nadadores mais celebrados pelo caloroso público local sorriu para a luz em seu bloco, que lhe indicava mais um pódio, pelo seu oitavo Mundial de Natação consecutivo. Laszlo Cseh, cuja biografia aquática já é tão extensa que desaba no colo e se esparrama pelo teclado de quem tenta buscá-la online, teve o respeito de seus rivais demonstrado mais uma vez.

Após a vitória com uma parcial final perigosa e de demonstração da tradicional “travada” provocada pelos 200m borboleta, Chad Les Clos (campeão com 1n53s33) não hesitou em, após recobrar um pouco do fôlego, erguer o braço do colega húngaro de tantos pódios, e saudar a torcida local, que transformou em circo a comemoração pela medalha do ídolo de 31 anos.

Chad Le Clos e Laszlo Caseh, em Budapeste-2017 - Foto: Reprodução/Sportv

Chad Le Clos e Laszlo Cseh, em Budapeste-2017 – Foto: Reprodução/Sportv

Por que falar do medalhista de prata da prova (de tempo final 1m53s72)? Bem, apenas retomemos, brevemente, a carreira de Laszlo. Carismático, magricela (em comparação com os fisicamente e visivelmente fortes rivais), sempre sem touca, com a careca lustrosa à mostra. Só isso talvez não chamasse tanto a atenção para Cseh em suas participações em grandes eventos. Mas os seus tempos, os seus pódios, e suas conquistas o transformaram numa marca – que deixa qualquer húngaro a lamentar que tivesse vindo em uma geração inteira ofuscada pelo brilho dissonante de Michael Phelps.

Convertido em números, que são tão eloquentes, o currículo de Cseh é impressionante: no total, ele somou 13 medalhas em Mundiais; 2 ouros, 6 pratas e 5 bronzes, subindo ao pódio desde a sua estreia, Barcelona-2003. Aos 17 anos e em seu primeiro grande evento internacional, levou a prata nos 400m medley, e bateu dois recordes nacionais. Ele repetiria um pódio na prova, agora em Atenas-2004, com o bronze, e seria campeão mundial pela primeira vez no ano seguinte.

Laszlo Cseh no Rio-2016

Laszlo Cseh em ação – Foto: Reprodução

Sua evolução no nado de borboleta apenas começou a aparecer em 2008, mas, apesar de bater os recordes europeus que encontrou pela frente… trombou com aquele que a imprensa americana apelida de “GOT” – The Greatest of all Times (“O Maior de Todos os Tempos”), seu antigo e desde sempre rival Phelps. Em Pequim, Laszlo faturou três pratas, em três das oito provas vencidas por Michael na ocasião: 400m e 200m medley, 200m borboleta. Quatro anos depois, acabou conseguindo apenas um bronze, nos 200m dos quatro estilos, atrás da dupla americana Phelps-Lochte.

Entre tentativas de brilhar em provas além do medley, Cseh surpreendeu o público – e a ele mesmo, ao levar a prata, atrás de Le Clos, no 100m borboleta em Barcelona-2013. Ele estava balizado com o 31º tempo na competição, e havia ficado fora do pódio nos 200m medley. Em Kazan-2015, talvez o húngaro tenha vivido um dos seus grandes momentos da carreira: sua rivalidade com o sul-africano já era um atrativo enorme para as provas de borboleta, e, uma vez que o torneio não contava com Phelps, suspenso pela Federação Americana, ele sabia muito bem que teria uma touca verde bem conhecida ao seu lado. Nos 100m borboleta, ficou com a prata, atrás de Chad, mas com seu primeiro tempo abaixo dos 51s desde 2012; mas a glória pessoal veio nos 200m. Com uma passagem forte, e um terceiro 50m superior, ele tomou a liderança e venceu a prova, com o seu primeiro título mundial em 10 anos!

Por fim, um capítulo à parte na carreira vitoriosa do carismático Cseh – e na história das provas de borboleta. No Rio-2016, sua grande frustração e talvez surpresa foi ausência de medalha nos 200m borboleta, a prova que, durante sua longeva jornada, se tornou seu ponto forte. Mas o que deixou o mundo aplaudindo em pé, respeitando e balançando a cabeça em sinal de aprovação foi o pódio triplo-combo dos 100m do estilo. Se o jovem de Cingapura Joeseph Schooling surpreendeu ao levar o ouro, sorriram (e se espremeram), lado a lado e com imenso respeito e admiração, Michael Phelps, Chad Le Clos e Laszlo Caseh, com a medalha de prata.

Empate triplo! Phelps, Laszlo e Le Clos

Empate triplo! Phelps, Laszlo e Le Clos – Foto: Reprodução

Após a jornada carioca, Cseh cogitou parar… tirou um tempo livre dos treinos, colocou a cabeça em ordem, e soube que Budapeste, sua cidade natal, seria seu próximo grande destino, desafio, compromisso. E, assim, teve a oportunidade de brilhar novamente diante do seu público, no seu país, em seu primeiro Mundial em casa. Ele já tinha vivido três Campeonatos Europeus em Budapeste, mas nunca um torneio que juntasse o planeta inteiro desta forma. Não veio o ouro, que repetiria seu feito de 2015, mas, com quase 32 anos, completar a segunda prova mais desgastante da natação em piscina, segundo eleição dos próprios atletas, e ser premiado, não é tão simples para um já veterano aquático.

A emblemática careca foi empurrada a gritos e aplausos, da piscina para o pódio da Duna Arena.

Por Mayra Siqueira

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