Michael Klim e as lições do esporte

Ex-nadador é uma lenda do esporte na Austrália e será imortalizado no Hall da Fama da natação este ano

18/02/2020 - Daniel Takata

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Michael Klim - Foto: Reprodução/abc.net.au
Michael Klim - Foto: Divulgação

Michael Klim - Foto: Divulgação

Michael Klim - Foto: Reprodução/abc.net.au

Em 1988, um jovem Michael Klim assistia à Olimpíada de Seul pela televisão.

Aos 11 anos, era a primeira Olimpíada que acompanhava. E torcia fervorosamente pelo herói de seu país, um de seus ídolos, o recordista mundial Artur Wojdat, da… Polônia?

Sim, você não leu errado. Michael Klim, hoje conhecido ídolo da natação australiana, na verdade nasceu na Polônia. E era lá que residia em 1988. Assim como seus compatriotas, esperava a medalha de ouro de Wojdat nos 400m livre, prova em que era o recordista mundial. Wojdat acabou com a medalha de bronze.

Mas, ao invés de Wojdat, ele foi mesmo cativado pelo australiano Duncan Armstrong, que protagonizou uma história de conto de fadas em Seul: chegou à Olimpíada longe de ser considerado um concorrente a medalha, em 46º no ranking mundial dos 200m livre, melhorou quase três segundos e conquistou a medalha de ouro com recorde mundial. Inacreditável!

Aquela prova foi a primeira inspiração para Klim seguir em provas de velocidade, de até 200 metros, e não os 400 metros de Wojdat. Sorte a dele, pois era aí que residia seu verdadeiro talento.

No ano seguinte, se mudou com seus pais para a Austrália, onde começou a levar a natação a sério. Como Armstrong, queria ser um nadador de 200m livre. E deu certo: logo em sua primeira Olimpíada, em Atlanta-1996, aos 18 anos, chegou com o primeiro tempo do mundo na prova.

Os 200m livre de Atlanta são inesquecíveis para nós, brasileiros, pela incrível medalha de prata conquistada por Gustavo Borges. Para Klim, no entanto, a prova tem sabor amargo: favorito, ele sequer passou das eliminatórias.

Foi o primeiro grande baque de sua carreira. E que lhe trouxe um tremendo aprendizado.

“Tive uma postura arrogante e não achei que aquilo poderia acontecer,” disse ele anos depois. “Tenho até hoje uma foto chorando no ombro da minha mãe após a prova. Utilizei aquele fato como motivação. E mudei algumas coisas. A partir de então, me tornei obsessivo para ter o controle das coisas em minha vida.”

Klim virou uma pessoa extremamente metódica. Após os treinos, anotava tudo que havia feito: a metragem percorrida, números de braçadas a cada piscina, marcas obtidas. Em competições, a obsessão era a mesma: tudo era meticulosamente planejado, e seus resultados analisados detalhadamente.

“Alguns companheiros meus, como o Grant Hackett (bicampeão olímpico nos 1500m livre), após o treino ter terminado, basicamente deixavam aquilo para trás e esqueciam. Eu registrava e anotava tudo. Isso me dava conhecimento e um entendimento de como algumas coisas funcionam e outras não.”

Maior do mundo

Michael Klim – Foto: Reprodução

A disciplina não demorou para render frutos. Em 1997, bateu o recorde mundial dos 100m borboleta, o único recorde individual em piscina de 50 metros daquele ano, e foi escolhido o melhor nadador do mundo pela revista Swimming World, na mais tradicional premiação da natação mundial.

Em 1998, foi o maior destaque do Campeonato Mundial, em Perth, na Austrália. Tornou-se o primeiro nadador da história a conquistar sete medalhas em um único Mundial (quatro ouros, duas pratas e um bronze). As vitórias vieram nos 200m livre e 100m borboleta, além de dois revezamentos.

Confira a seguir as duas provas individuais que venceu naquele Mundial.

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Na época, com a internet engatinhando e sem muito acesso a vídeos de competições internacionais, as informações que chegavam era de que Michael Klim era um nadador gigantesco, assustador, com uma força descomunal, que possuía uma técnica insólita de nado e que misturava o borboleta e o crawl nas provas de livre. Uma figura lendária, fora dos padrões, uma entidade quase extra-terrestre. Como aquilo podia ser possível?

Não era mentira. Klim era alto e musculoso, e sua silhueta careca e cara de mau ajudavam a construção daquela figura exótica no imaginário popular. Além disso, ele havia desenvolvido uma técnica em que finalizava a prova de 100m livre com braçadas de crawl e pernadas de borboleta. E que vinha dando muito certo.

Chegou à Olimpíada de 2000, em Sydney, como estrela. Em sua primeira prova, o revezamento 4x100m livre, a equipe australiana derrotou a americana pela primeira vez na história olímpica da prova, em uma disputa alucinante. Mais que isso, Klim superou o recorde mundial dos 100m na abertura da prova, utilizando sua técnica ortodoxa. Um recorde que pertencia ao russo Alexander Popov, seu companheiro de treino, e um dos mais cobiçados da natação à época.

“A minha melhor lembrança na natação é aquele revezamento, e a gente tocando ‘air guitar.’ Foi adrenalina pura, e dividir aquele momento com meus companheiros foi ainda mais gratificante.”

(antes da Olimpíada, o americano Gary Hall Jr. havia declarado que os Estados Unidos destruiriam os australianos na natação “como se destroem guitarras.” Klim e seus companheiros, após a vitória, simularam tocar guitarras em resposta a Hall.)

Michael Klim e sua “air guitar” em 2000 – Foto: Reprodução/abc.net.au

Acompanhe a prova a seguir, e reparem, na parcial de abertura do revezamento de Klim, ele se utilizar de pernadas de borboleta nos últimos 10 segundos de sua prova:

 

O início da Olimpíada foi perfeito, mas os dias seguintes nem tanto. Nos 100m livre, apesar de ter batido o recorde no revezamento, ficou fora do pódio, perdendo a medalha por um mísero centésimo. Nos 100m borboleta, prova em que era o recordista mundial, liderou por quase toda a prova mas foi superado no final pelo sueco Lars Frolander. Conquistou mais um ouro com o revezamento 4x200m livre e uma prata no 4x100m medley.

Apesar de não ter conquistado as vitórias que esperava em suas provas individuais, ele sempre viu sua participação naquela Olimpíada como um sucesso. “Minhas medalhas olímpicas são meu bem material mais precioso.”

Não voltaria mais a brilhar intensamente. Nos anos seguintes, disputou os Mundiais de 2001, 2005 e 2007 e a Olimpíada de 2004, e conquistou medalhas apenas em revezamentos – o que não é pouca coisa, dada a concorrência para fazer parte dos revezamentos australianos na época. Atormentado por contusões – quebrou um tornozelo e passou por uma cirurgia nas costas e três nos ombros -, anunciou a aposentadoria da natação competitiva em 2007.

(ainda tentou um retorno à natação em 2011 visando os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, mas não alcançou seu objetivo.)

Michael Klim, ao lado de Ian Thorpe e Grant Hackett: três dos maiores expoentes da história da natação australiana – Foto: Reprodução/dailytelegraph.com.au

Lições do esporte

Após anos tentando voltar à melhor forma e se frustrando continuamente, o que seria de Michael Klim sem a natação? Praticamente todos os grandes nomes da grande geração australiana do final dos anos 90 e início dos 2000, como Ian Thorpe, Grant Hackett, Geoff Huegill, Petria Thomas, Leisel Jones e Jade Edmistone, sofreram sérios problemas após o término de suas carreiras, muitos deles tendo sofrido de depressão e até tentado suicídio. Em parte porque, pela natação ser um esporte tremendamente popular na Austrália, eles não conseguiram suportar o peso da fama e da transição para uma “vida normal”, algo para o qual jamais se prepararam.

Foi aí que a disciplina de Michael Klim lhe rendeu dividendos.

Como uma pessoa metódica e que sempre quis ter o controle de sua vida, Klim pressentiu quando o fim de sua carreira estava próximo. E não queria passar pelas dificuldades que seus companheiros tiveram longe da piscina.

Por isso, passou anos se planejando. “Calculei tudo. Eu estava absolutamente preparado para quando deixasse as piscinas.”

Pouco antes de se aposentar, já havia cuidado de seus investimentos financeiros. Ele e sua então esposa criaram uma linha de produtos de cuidados com a pele.

O negócio decolou e hoje Klim é um empresário bem sucedido. Não passou por um período de incertezas após parar com a natação, fundamental para não se sentir sem rumo como muitos de seus ex-colegas. Assim, não teve problemas em se adaptar a uma nova vida longe dos treinamentos e das competições. E muito disso se deve àquela lição que ele aprendeu após a derrota na Olimpíada de 1996.

A de assumir responsabilidade por tudo que acontece em sua vida, e de fazer o possível para ter o controle sobre ela. Ele é o perfeito exemplo de que, à medida que assumimos a responsabilidade por nossa vida, mais poder adquirimos para dar rumos a ela.

Não é à toa que Michael Klim é tido como um dos grandes nadadores de sua época e será imortalizado no Hall da Fama Internacional da Natação este ano.

Michael Klim, um obcecado pela perfeição, o nadador que habitou o imaginário de uma legião de jovens e que virou ídolo. Hoje dissemina os ideais de um estilo de vida saudável nas redes sociais e pode ser encontrado administrando seus negócios, se divertindo com seus três filhos ou surfando em alguma praia em Bali, onde mora.

Michael Klim hoje: disseminando as lições do esporte – Foto: Divulgação

Para saber mais:

https://www.pressreader.com/australia/qantas/20161001/284971084291176

https://www.dailytelegraph.com.au/lifestyle/sunday-style/the-changing-life-of-michael-klim/news-story/bda337eaaaf5b78a0f12fdab0d373b92

https://www.dailymail.co.uk/news/article-7493221/Insight-Michael-Klims-dating-life-multimillion-dollar-skincare-empire-Balinese-lifestyle.html

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Austrália Hall da Fama da Natação Internacional Ian Thorpe ISHOF Jogos Olímpicos Michael Klim natacao natação australiana

Daniel Takata

Redator da SWIM CHANNEL.

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