Missy Franklin: o poder do sorriso e das palavras

Uma das maiores nadadoras da história anuncia aposentadoria aos 23 anos de idade

20/12/2018 - Daniel Takata

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Missy Franklin (crédito: Rob Schumacher/USA TODAY Sports)

Missy Franklin (crédito: Rob Schumacher/USA TODAY Sports)

Em maio de 2017, o site americano SwimSwam postou um divertido texto intitulado 11 signs you are officially a swim parent (“11 sinais de que você é oficialmente pai de um nadador”).

O post enumera 11 itens com os quais todos os pais de nadadores certamente se identificam (nos Estados Unidos). O número 8 chama a atenção.

“Você sabe quem são Katie Ledecky, Ryan Lochte, Matt Grevers e Nathan Adrian. (falando sério, pergunte a uma família que não tenha nadadores – talvez eles se lembrem dos nomes de Michael Phelps e de Missy Franklin.)”

A natação não é exatamente um dos esportes mais populares nos Estados Unidos. E, por mais que o país seja extremamente bem sucedido internacionalmente, mesmo os nadadores mais vencedores não possuem o status de celebridades, salvo raríssimas exceções.

Michael Phelps obviamente é uma delas. E a outra, como confirma o post, é Missy Franklin.

(notem que o post é de 2017, ou seja, após a consagração de Katie Ledecky na Olimpíada do Rio de Janeiro. E, ainda assim, o texto a coloca degraus abaixo de Franklin em termos de popularidade.)

Por esse motivo, o dia de ontem entrou para a história. O dia da aposentadoria de Missy Franklin, aos 23 anos, anunciado por ela própria nas redes sociais.

Após anos sofrendo com lesões, a agora ex-nadadora, que desde 2015 vinha tendo resultados cada vez mais distantes daqueles que um dia obteve, desistiu de lutar contra o próprio corpo.

Para quem esteve alheio à natação nos últimos anos, vale a lembrança: a americana foi a nadadora mais dominante do mundo entre 2011 e 2013.

Missy Franklin (centro), no pódio dos 200m costas no Mundial de Barcelona, em 2013 – Foto: Reuters

Foi escolhida pela FINA a melhor nadadora do mundo em 2011 e 2012.

Saiu da Olimpíada de Londres em 2012 com 4 ouros, e do Mundial de Barcelona um ano depois com 6 – esse último, um feito que nenhuma mulher conseguiu igualar em piscina de 50 metros.

Seu incrível recorde mundial dos 200m costas, obtido em Londres, se mantém até hoje como o mais antigo feminino obtido sem trajes tecnológicos.

Em 2013, foi a vencedora do prêmio Laureus, o Oscar do esporte, de melhor atleta do ano, único até hoje conquistado pela natação. São 6 medalhas olímpicas e 16 em mundiais de piscina longa.

Uma carreira invejável, certamente. Uma das maiores nadadoras do mundo nos últimos anos.

No entanto, outros nadadores americanos não ficam a dever em termos de conquistas.

Ledecky também tem 6 medalhas olímpicas, e 15 em mundiais de longa. Ryan Lochte, 12 e 27, respectivamente.

O que justifica sua tamanha popularidade?

A resposta é a mesma para quem questiona porque o corredor Usain Bolt é tão mais popular que atletas como Carl Lewis jamais sonharam ser.

Franklin transcende a natação. É um ícone olímpico. E isso não se consegue somente com medalhas.

Sim, as vitórias são parte fundamental da equação. Mas assista à prova a seguir para entender o que estou falando.

 

Missy Franklin termina em segundo lugar nos 200m livre na seletiva olímpica americana de 2016, atrás de Katie Ledecky. Conquista a medalha de prata no campeonato nacional em uma prova em que havia sido campeã mundial três anos antes.

E seu sorriso ao final da prova é maior do que qualquer um já esboçado por Ledecky, Lochte e mesmo Phelps após vitórias com recordes mundiais.

O espírito de Franklin sempre a fez se aproximar do público. A simpatia, as entrevistas descontraídas, a interação com companheiros de equipe e adversários…

Como esquecê-la liderando o time americano no vídeo “Call Me Maybe” às vésperas dos Jogos Olímpicos de 2012?

 

Não teve uma boa Olimpíada em 2016. No revezamento 4x200m livre americano, no qual na teoria seria titular absoluta na final, foi colocada pelos técnicos para nadar somente a eliminatória.

E, após suas colegas conquistarem a medalha de ouro, postou no Twitter: “Conseguimos! Estou tão orgulhosa de ter feito parte da equipe na eliminatória”.

Tal frase, se proferida por outro nadador, poderia soar forçada, política, quase que disfarçando uma decepção. Mas não vinda de Missy Franklin.

Se a atitude positiva em momentos difíceis sempre transpareceu genuinidade, as lágrimas após grandes baques, como após não avançar à final dos 200m costas na mesma Olimpíada, foram de cortar até o coração mais gelado.

Missy Franklin é consolada por Maya DiRado, após ser eliminada na semifinal dos 200m costas na Olimpíada de 2016 – Foto: Robert Gauthier/Los Angeles Times

Ela não era somente a grande atleta que qualquer país quer contar. Mas a amiga, a filha, a nora, a colega de trabalho, a vizinha que todos sonham ter.

Talvez a frase que mais resuma seu astral foi proferida por ela justamente após a difícil Olimpíada de 2016:

“Colocando as coisas em perspectiva, se uma competição ruim é a pior coisa que pode acontecer na minha vida, então eu tenho uma vida muito boa.”

Missy Franklin fez da natação um esporte mais feliz durante sua carreira. Esperamos que seu exemplo seja seguido e assim, indubitavelmente, a natação atingirá cada vez mais pessoas.

Com o poder do sorriso e das palavras.

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Daniel Takata

Redator da SWIM CHANNEL.

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