Intolerância alimentar no esporte

Entenda porque alguns alimentos podem prejudicar seu rendimento nos treinos e nas competições

13/03/2019 - Marcella Amar

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Cada vez mais pacientes têm chegado ao consultório com queixas como intestino preso, câimbras, distensão abdominal, dentre outras. Esses e outros sintomas podem ser um alerta de que algo não vai bem com a saúde e com a maneira como se está assimilando os nutrientes presentes nos alimentos.

Muitas vezes, após procurar as causas desses desconfortos, nos deparamos com a possibilidade de estar acontecendo realmente alguma alergia alimentar, o que pode gerar alguma confusão. A grande maioria das vezes, quando o termo alergia vem à tona, nos remete a sintomas como manchas avermelhadas na pele, falta de ar, sintomas fortes que podem ser características das alergias chamadas Imediatas.

Com o tempo, cada vez mais tem estado em evidência outro tipo de alergia alimentar, que se chama Alergia Tardia. Tende a ser mais difícil de ser detectada, pois muitas vezes os sintomas (labirintite, pressão baixa/astenia, azia, enjoos, sinusite, gases, dor de estômago, dentre outros) demoram horas ou dias para se manifestar após consumo repetitivo dos alimentos vilões. No caso de necessidade de alguns exames laboratoriais, pode demorar até semanas para se notar que algo não está indo tão bem. Por exemplo, diminuição na absorção de proteínas e minerais como magnésio, cálcio, ferro, dentre outros que consumimos.

A Alergia Tardia também se difere da Alergia Imediata pelos tipos de anticorpos envolvidos que, no caso da Alergia Tardia, podem ser mensurados por IgG e IgA, citotoxidade. É fato que, se muitos de nós fizéssemos exames para identificar esse tipo de alergia (Tardia), teríamos vários resultados positivos sem nem ao menos ter esses sintomas inflamatórios. Mas, para pequena parcela da população, o consumo com grande frequência de alimentos daqueles tipos pode gerar grandes incômodos, a ponto de mudar hábitos sociais. Ao ter medo de consumir certos alimentos, pode-se evitar consumo de vários alimentos no dia a dia, com o custo de deixar a dieta pobre em nutrientes.

Com o aumento na quantidade e qualidade dos exames disponíveis para detectar esses possíveis vilões na dieta, pacientes têm buscado cada vez mais, através desses meios de detecção, melhorar sua qualidade de vida e, assim, usar os alimentos como ferramentas para tentar melhorar no que for possível os processos inflamatórios.

Não só a busca por saúde e a diminuição desses sintomas incômodos têm impulsionado a procura por esses exames. Em outra realidade, em que cada centésimo de segundo conta, atletas de alto rendimento também têm se beneficiado desses recursos, na medida em que, durante o processo de treinamento, estejam sujeitos a microlesões no tecido muscular e consequentemente aumento da quantidade de inflamação no corpo. Para tais atletas, o ganho de performance acontece entre uma sessão e outra de treino, quando o corpo se regenera desses eventuais estímulos negativos.

Qualquer melhora da absorção de proteínas, carboidratos, vitaminas e minerais, na disposição e na diminuição do perfil inflamatório já ajuda bastante, principalmente no processo de recuperação. O que se observa também é que, em função dessas melhoras, muitos atletas conseguem responder mais facilmente aos estímulos anaeróbicos durante os treinamentos, como maior produção de células vermelhas, menor tempo perdido no treino, ajuda na diminuição de hormônios relacionados ao stress, assim como no tempo de recuperação e incidência de lesões.

EXEMPLOS DE INTOLERÂNCIAS E ALERGIAS

 Desde um atleta amador até um veterano da seleção brasileira, a análise sobre a intolerância alimentar é importante. Poliana Okimoto, a melhor maratonista aquática do mundo em 2013, apresentava sensibilidade ao trigo. Tal informação levou à correção do cardápio, o que se tornou um dos fatores que levaram a ter o melhor ano competitivo de sua vida. Já o velocista Nicholas Santos, líder do ranking mundial dos 50m borboleta no ano passado, apresentava sensibilidade à proteína do leite. Tanto no caso de Poliana quanto no do Nicholas, os alimentos foram substituídos.

Além da possibilidade de utilizar os alimentos como ferramentas no propósito de melhorar a recuperação, não é incomum também o atleta sentir alguma melhora imediata. Por exemplo, com relação a queixas sobre enjoos, distensão abdominal durante sessões de treino aeróbicas – menos intensas e menos propensas que as sessões anaeróbicas a causar esses tipos de sintomas (interessante ver que, em muitas vezes, o próprio repositor intratreino possui alguma substância alérgena que pode vir a gerar esse desconforto). Exemplo: um atleta tem sensibilidade a alguma fruta e sente desconforto quando consome algum repositor que tenha frutose ou tem maior sensibilidade ao milho e faz uso de um repositor que tenha maltodextrina.

Não existe uma lista universal de alimentos que possam funcionar para todos, embora existam alguns alimentos que tenham frequência maior de “positivos” em exames de Alergia Tardia. Muitas vezes, com uma boa análise, é possível identificar alguns possíveis candidatos a causadores desses sintomas indesejados. O que pode gerar muita confusão é que muitos desses alimentos candidatos são bem difíceis de ser identificados, pois podem, por exemplo, ser utilizados diariamente como algum condimento no preparo dos alimentos.

Existe também muita confusão com relação à alergia e intolerância. Na maioria das vezes, o que ocorre é que, após ingerir alguns alimentos, o corpo pensa (de forma equivocada) que esses alimentos são possíveis agressores. Ingestão com grande frequência acaba deixando a mucosa intestinal mais inflamada de forma crônica, o que pode diminuir a capacidade do corpo de digerir outros alimentos, como produtos ricos em lactose (açúcar do leite), proteínas. Além disso, ingestão frequente possivelmente leva a alguns dos sintomas já mencionados no início.

Esses exames são feitos a partir de amostras de sangue em laboratórios e clínicas e podem ser indicados por médico ou nutricionista. Cada pessoa é única, infelizmente não existe uma dieta que seja receita de bolo e possa ser utilizada por todos. O mais importante é, primeiramente e junto com um médico, procurar excluir qualquer outra possível causa para os sintomas em questão e não cortar alimentos da dieta por estar na moda.

 

Marcella Amar

Nutricionista e ex-atleta da seleção brasileira.