O fim definitivo do “sexo frágil”. Ao menos no programa da natação olímpica

12/06/2017

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Houve uma época em que o sexo feminino era tratado sem pudores como “sexo frágil” na natação.

E isso se refletia até no programa de provas da natação olímpica.

Por exemplo: até 1964, os 200m borboleta eram disputados somente por homens. No feminino, apenas os 100m do estilo. A justificativa era que a prova era muito desgastante para ser encarada por mulheres.

(a holandesa Harry Pot, recordista mundial dos 200m borboleta em 1960, só teve a oportunidade de competir os 100m na Olimpíada daquele ano e terminou com a prata – que poderia ter sido ouro caso sua especialidade fosse prova olímpica.)

A holandesa Marianne Heemskerk, recordista mundial dos 200m borboleta em 1960 (foto: Harry Pot)

A holandesa Marianne Heemskerk, recordista mundial dos 200m borboleta em 1960 (foto: Harry Pot)

Na Olimpíada de 1968, foi implementado um programa de provas que é a base para o existente hoje, com provas de 100m a 1500m livre (com 800m feminino e 1500m masculino), 100m e 200m borboleta, costas e peito e 200m e 400m medley.

No entanto, ainda persistia uma diferença sexista. Para os homens, três revezamentos. Para as mulheres, apenas dois: não havia o 4x200m livre feminino.

Era resquício de um pensamento do início do século semelhante ao que justificava os 200m borboleta somente para homens: o 4x200m seria muito desgastante para mulheres.

E demorou para que essa discrepância fosse corrigida: somente em 1996 o revezamento seria adicionado ao programa feminino, uma correção tardia em uma época de mais esclarecimentos do que décadas antes em que supostamente não deveria mais haver distinções por sexo, principalmente no esporte, que tem como um dos objetivos a congregação e universalidade de raças, povos etc.

Pois aquele mesmo pensamento das mulheres frágeis, que não podiam nadar 200m borboleta e 4x200m livre, encontra resquícios ainda hoje.

Não que na natação alguém ainda ache que mulheres não podem nadar as mesmas provas que homens.

Mas, em nome da tradição, a prova olímpica feminina mais longa são os 800m livre feminino. Para os homens, os 1500m.

São não. Eram.

Felizmente, na última sexta-feira, o Comitê Olímpico Internacional (COI) finalmente anunciou a paridade dos programas feminino e masculino na natação, com a inclusão dos 800m masculino e 1500m feminino para a próxima Olimpíada, em Tóquio, em 2020.

Assim como ocorreu com o 4x200m, talvez essa mudança pudesse ter ocorrido muito antes. Afinal, mesmo que tal pensamento não faça sentido hoje, o fato dos homens nadarem uma prova mais longa que as mulheres era justificado pelo mito do “sexo frágil”. E não há motivos para que algo resultante desse pensamento se perpetue. Nem em nome da tradição.

O esforço do COI de reduzir a diferença das representatividades masculina e feminina tem sido observado gradativamente nos últimos ciclos olímpicos, e não só na natação. Por isso, tal iniciativa é louvável.

Por outro lado, há quem diga que as provas são redundantes. Não teria sido melhor, para paridade dos gêneros, manter somente 800m masculino e feminino? Ou somente os 1500m?

Mas será que são mesmo redundantes? Não necessariamente. Em Campeonatos Mundiais, as provas são disputadas desde 2001. Em 8 edições, houve 16 pares 800m-1500m feminino e masculino. E em 6 os vencedores foram diferentes. Então não necessariamente há garantia de que os vencedores serão os mesmos. A não ser, claro, quando há alguém como Katie Ledecky na disputa.

Katie Ledecky e um de seus quatro ouros olímpicos em 2016 (foto: USA Today Sports)

Katie Ledecky e um de seus quatro ouros olímpicos em 2016 (foto: USA Today Sports)

O que é certo é que os nadadores de livre têm muito mais possibilidades de medalhas. Se houvesse provas de 400m e 800m costas, borboleta e peito, certamente teríamos medalhistas diferentes. Então por que haver tantas provas de livre? Enfim, essa é uma discussão que não é de hoje.

E há também a inclusão do revezamento 4x100m medley misto (duas mulheres e dois homens). Só o tempo dirá o quanto a prova será popular. Foi disputada em Mundiais em 2015.

E o que parecia ser uma prova em que as diferentes estratégias das equipes seria o grande atrativo não se concretizou de forma completa: já se percebeu que em geral o melhor aproveitamento é obtido com dois homens abrindo e duas mulheres fechando – todas as equipes que subiram ao pódio no Mundial de 2015 nadaram dessa forma, assim como a maioria dos times.

Agora com a prova sendo olímpica, as equipes olharão a prova de forma mais dedicada, assim como para os 800m masculino e 1500m feminino.

E certamente observaremos uma evolução nas disputas.

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