O que é diferente na mente de um campeão?

A atitude de Bruno Fratus após a prata nos 50m livre diz muito sobre o nível que ele alcançou e os objetivos que tem em mente

27/07/2019 - Daniel Takata

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Bruno Fratus. 50m livre. Campeonato Mundial dos Esportes Aquáticos. 26 de Julho de 2019, Gwangju, Coreia do Sul. Foto:  Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br
Bruno Fratus. 50m livre. Campeonato Mundial dos Esportes Aquáticos. 26 de Julho de 2019, Gwangju, Coreia do Sul. Foto:  Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br

Bruno Fratus. 50m livre. Campeonato Mundial dos Esportes Aquáticos. 26 de Julho de 2019, Gwangju, Coreia do Sul. Foto: Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br

Bruno Fratus. 50m livre. Campeonato Mundial dos Esportes Aquáticos. 26 de Julho de 2019, Gwangju, Coreia do Sul. Foto: Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br

Bruno Fratus (foto: Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br)

Você conhece a fábula “A Raposa e as Uvas”, do poeta grego Esopo?

Trata-se da história de uma raposa que se aproximou de uma videira. Desejosa de comer algumas uvas suculentas, apoiou-se contra o tronco e esticou o pescoço. Mas elas estavam muito altas. Irritada, tentou novamente. Com um salto, novamente não alcançou nada. Na terceira vez, pulou com toda a força, e acabou caindo de costas. Nem uma folha se moveu. A raposa torceu o nariz: “Ainda não estão maduras o suficiente para mim; não gosto de uvas azedas.” De cabeça erguida, voltou orgulhosa para a floresta.

(fonte: livro A Arte de Pensar Claramente, de Rolf Dobelli)

Você já deve ter testemunhado, ou até ter sido protagonista, de situação parecida. O sujeito que presta concurso público uma, duas, três vezes, sem conseguir ser aprovado. Após algumas tentativas, desiste. “É tudo carta marcada. Só quem tem costas quentes consegue passar. Nem adianta tentar”, pensa o sujeito.

É um erro frequente de pensamento que na psicologia comportamental é chamado de dissonância cognitiva. É o fato de a pessoa reinterpretar posteriormente alguma coisa, de acordo com a conveniência.

O cérebro humano odeia contradições. No caso do sujeito do concurso, desistir após algumas tentativas é uma contradição. Afinal, o sujeito não queria tanto a vaga lá no início da trajetória? Por isso, busca-se uma justificativa, por mais estapafúrdia que seja e por mais que esteja em desacordo com tudo que ele fez.

E tal erro de pensamento é tão importante porque é um dos maiores empecilhos ao desenvolvimento pessoal.

Não são muitas as pessoas que conseguem driblar esse truque que o cérebro nos prega.

E esse, em geral, é um grande diferencial dos campeões.

Hoje, tivemos um excelente exemplo, na final dos 50m livre masculino do Mundial de Esportes Aquáticos.

Vimos o americano Caeleb Dressel vencer a prova com 21s04, recorde de campeonato, conquistando assim o bicampeonato.

Vimos o grego Kristian Gkolomeev surpreender e chegar na segunda posição com 21s45, deixando para trás favoritos como o inglês Ben Proud e o russo Vladimir Morozov.

Mas vimos, sobretudo, Bruno Fratus terminar empatado com o grego, conquistando sua terceira medalha em Mundiais na prova, a segunda de prata consecutiva (foi bronze em 2015).

Ele se iguala a ninguém menos que Cesar Cielo e Alexander Popov como os únicos a alcançarem três pódios em Mundiais na prova mais rápida da natação.

Bruno Fratus na largada dos 50m livre (foto: Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br)

Ainda na água, ao perceber seu tempo final, sua expressão corporal foi de desapontamento.

Em entrevista ao SporTV, expressou gratidão por estar mais uma vez entre os melhores do mundo, mas enfatizou que o tempo do vencedor estava ao seu alcance – por isso o descontentamento.

“Dá para eu fazer o tempo que ele (Dressel) fez, dá para fazer 21s0, até 20s9. Pela análise biomecânica, dá para fazer mais rápido que isso. É treinar para fazer a prova certa”, disse ele ao Globoesporte.com.

Muitos disseram que, em um momento como esse, ele deveria estar vibrando com a conquista, e não lamentando seu desempenho.

Afinal, não é todo dia que se alcança o pódio em um Mundial – ainda mais em se tratando do esporte brasileiro.

Caso fizesse isso, seu comportamento seria perfeitamente explicado pela dissonância cognitiva.

“A medalha de prata está ótima! Nem tem como ganhar desse americano mesmo. E além disso, antes prata do que bronze, ou do que quarto”, poderia ele pensar.

Mas não.

Ele queria o ouro e um tempo melhor. O fato de não ter conseguido não faz com que ele reinterprete os fatos e os acontecimentos, como a raposa ou o sujeito do concurso.

Bruno Fratus, Caeleb Dressel e Kristian Gkolomeev com suas medalhas (foto: Satiro Sodré/rededoesporte.gov.br)

E essa é uma das principais razões pelas quais ele está em constante evolução – aos 30 anos, jamais ficou muito tempo sem melhorar sua marca nos 50m livre.

Quem chega ao nível que ele chegou dificilmente é enganado pelo cérebro no que definimos como dissonância cognitiva.

Pode até ser que em alguns momentos isso quase aconteça, afinal ninguém é de ferro.

Mas atletas como Bruno têm a força mental de manter o foco quando tudo, até mesmo parte de sua mente, deseja seguir outro caminho.

Isso não é dom, isso não é talento.

É treino.

Quando estiver fazendo uma atividade corriqueira e por algum motivo cogitar em desistir, nem pense em procurar uma justificativa posterior.

Pode ser no processo de fazer uma dieta, de fazer um relatório, de tentar acordar uma hora mais cedo todos os dias.

Considere apenas duas alternativas:

i) admitir que não tem capacidade suficiente para concluir o que fazia – o que pode ser doloroso, por isso muitas pessoas evitam pensar nisso; mas, se for a situação verdadeira, fará você procurar novos caminhos sem se auto-sabotar. Sem essa de “ah, eu só não faço porque não quero, pois se eu quisesse eu faria”;

ou

ii) continuar tentando até conseguir – o que também pode não ser fácil, mas, como já enfatizado, a persistência é uma questão de treino e aprimoramento.

Adotando tal comportamento para pequenas coisas, você encarará desafios maiores com mais propriedade.

E assim você corre o sério risco de alcançar os objetivos mais ousados.

Exatamente os tipos de objetivos que não saem da cabeça de Bruno.

Leia-se Tóquio-2020. 21s0, 20s9. Medalha de ouro.

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Bruno Fratus Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos

Daniel Takata

Redator da SWIM CHANNEL.

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