O renascimento da ultramaratona aquática

Provas de longas distâncias estão crescendo a cada ano no calendário nacional; entenda as razões neste artigo

19/02/2019 - Catarina Ganzeli

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Foto: Satiro Sodré/SSPress
Foto: Alcides Netto

Foto: Alcides Netto

Foto: Satiro Sodré/SSPress

Como apaixonada que sou por essa modalidade, nada mais justo do que conhecer suas origens, correto? As provas de ultramaratonas são caracterizadas por distâncias acima de 15 km. Estamos vivenciando um aumento de provas de longas distâncias em todo o país. Mesmo já existindo outros desafios, a criação da prova Leme to Pontal Swimming Association (LPSA), com sua primeira edição no dia 10 de junho de 2016, fez com que os desafios de longa distância subissem ao palco. Seu presidente Adherbal de Oliveira foi quem inaugurou os 36 km de natação em novo modelo de prova, em 12 de julho 2015, exatos 7 anos depois do atleta Luiz Lima ter sido o primeiro a cumprir tal desafio.

A associação LPSA, presidida por Adherbal, atleta ultramaratonista e técnico, veio organizar todo o procedimento burocrático, bem como elaborar as despesas correspondentes; os recursos humanos e materiais para que os nadadores possam concluir a travessia com total segurança. Além disso, o órgão também regulamenta a prova e orienta atletas interessados, seja na modalidade solo ou revezamento, com ou sem o uso de neoprene (roupa de borracha), como forma de democratizar a travessia. Até o presente momento já foram concluídos 23 nados solo e 13 revezamentos em menos de dois anos de existência.

Betina Lorscheitter em ação na Travessia do Leme a Pontal – Foto: Reprodução

O modelo inspirado no Canal da Mancha, o “Everest da Maratona Aquática” o qual já possui 29 brasileiros consagrados por completar o desafio, chamou atenção não só pela distância semelhante como também pelas paisagens do trajeto. Com o sucesso deste desafio, a Associação Aquática Amazonas lançou recentemente o Amazon Challenge, a mais nova ultramaratona aquática do Brasil, que conta com provas de 18 km e 30 km, podendo ser realizadas durante todo o ano no Rio Negro, em Manaus. Lembrando que já foi realizado em 2015 uma prova de 30km, contando com os principais nadadores de longas distâncias do mundo.

Completando a lista de desafios nesse modelo, temos a prova da Ilha do Arvoredo, com um trajeto de 25 km na região de Bombinhas (SC), sendo realizada pela primeiras vez em 2010 pelos nadadores Cassio Ricci e Carlos Bergamaschi e já conta com 14 nadadores concluindo esse desafio.

 

Nadadores em ação no Rio Negro – Foto: Reprodução

O crescimento das provas de ultramaratonas

Os números instigaram as organizações a realizarem provas competitivas de ultramaratonas, não só no modelo de desafio, onde o nadador segue o trajeto sozinho com seu barco de apoio, mas sim, com todos os inscritos em uma só largada, como acontece na tradicional prova Maratona Aquática 14 Bis, que esse ano chega a sua 52ª edição. Uma prova muito tradicional com o trajeto de 24 km no Canal de Bertioga que divide Santos e Guarujá. Modelo de prova que espelhou a travessia da Ilha do Mel de 20 km, onde os nadadores também largam juntos e seguem a prova com seus caiaques guias.

Paralelamente à tradicional prova paulista temos a famosa Travessia Mar Grande em Salvador, cujas últimas edições não foram realizadas por falta de recursos. A prova de 12 km que tem sua largada na Praia do Duro de Mar Grande, em Vera Cruz, na Ilha de Itaparica e sua chegada no Porto da Barra, em Salvador, teve 51 edições realizadas desde 1955. Esta prova, mesmo não tendo a distância de uma ultramaratona, possui as mesmas características, por ter o acompanhamento de um barco guia para cada atleta, para a sua segurança e hidratação.

Os participantes da ultramaratona da CBDA de 25 km – Foto: Satiro Sodré/SSPress

 

Espelhados nesse sucesso, em 2018 tivemos muitos lançamentos de provas em São Paulo. O tradicionalíssimo Circuito Maratona Aquática que sempre foi realizado em um modelo de provas de até 4 km, teve um circuito em paralelo com três provas de 15 km, enquanto o Desafios Aquaman realizou sua ultra maratona de 17 km em Nazaré Paulista. Ao norte, o Rio Negro Challenge também realizou neste mesmo modelo, a prova de 18 km Travessia do Tupé com a participação de 15 nadadores. A Associação 14 Bis, acompanhando essa evolução lançou a prova de 15 km no Rio Itapanhaú, há um mês antes de sua prova principal, a própria 14 Bis.

O esporte profissional não poderia ser diferente. Após o grande destaque de Ana Marcela Cunha sendo tricampeã mundial da prova de 25 km em Budapeste-2017, a nova gestão da CBDA incluiu a distância oficial no Circuito Brasileiro, prova que estreou na segunda etapa do Campeonato Brasileiro de Maratonas Aquáticas, ano passado em Caraguatatuba (SP) com apenas cinco participantes, sendo uma mulher (a que vos escreve).

 

Nadador em ação durante a 14 Bis – Foto: Jacqueline Dalia

O legado das ultramaratonas no Brasil

Temos grandes nomes brasileiros que foram “pais” dos eventos que temos hoje como, Igor de Souza (único brasileiro ao atravessar ida e volta do Canal da Mancha), Abílio Couto (primeiro brasileiro a concluir o Canal da Mancha), Cristiane Fanzeres (por anos diretora de maratonas aquáticas da CBDA) e Renata Agondi (uma das melhores do mundo em sua época). Os campeonatos mundiais da modalidade nos anos 70 e 80 chegavam a ter 15 provas no ano, sendo que a menor distância era de 25 km e podiam chegar até 80 km de prova. Naquela época o principal circuito da modalidade não possuía provas menores.

Hoje podemos ver atletas apaixonados por esse modelo de provas regerem os novos eventos, como é o caso do Circuito de Ultramaratonas organizado por Igor de Souza, de Samir Barel; idealizador e organizador da ultramaratona de Nazaré Paulista e Percival Milani; fundador da associação que resgatou a prova 14 Bis e lançou o desafio de 15 km do Rio Itapanhaú. O público amador demonstrou imenso interesse por esses modelos de provas, não somente pelo Canal da Mancha como também pelo incrível desafio das Oito Pontes no Rio Hudson nos EUA, onde são nadadas 120 milhas em sete dias onde tivemos a incrível participação de três brasileiros; Marta Izo e Harry Finger atletas de Igor de Souza e Flavio Toi atleta de Samir Barel.

Esse cenário deixa ao menos curioso o que tem de tão encantador nesse modelo de prova, que ao ver de longe parece atrair somente “loucos”, porém vem ganhando um espaço de respeito entre os nadadores brasileiros tanto amadores quanto profissionais.

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Águas abertas Catarina Ganzeli natacao ultramaratona aquática

Catarina Ganzeli

Nadadora da Unisanta e da seleção brasileira  especialista em ultramaratonas aquáticas

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