Prazer, sou Nicholas Santos

24/07/2017

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– Olá, tudo bem?

– Tudo. Qual é seu nome?

– Nicholas Santos.

– Em que posso ajudá-lo?

– Quero ser campeão mundial em piscina longa dos 50m borboleta.

– Ok, deixe-me checar se é possível.

(…)

– Infelizmente não tenho garantir isso para você.

– Por que não? Tem muita gente na minha frente?

– Sim. A fila de espera é bem grande.

– Tudo bem. Eu espero o tempo que for. Tem alguma previsão?

– Não posso lhe dar um prazo. Sugiro que volte a cada dois anos e continue tentando.

– Mas isso vai dar muito trabalho.

– Infelizmente é o nosso protocolo.

– Tudo bem.

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

Foi o que Nicholas fez. A cada dois anos, lá estava ele de volta.

Em 2009, bateu o recorde das Américas no Mundial de Roma, mas com 23s00 terminou na quinta posição.

Em 2011, estava confiante de que poderia finalmente brigar por medalha. Um resultado adverso no exame antidoping por um suplemento contaminado o tirou do Mundial de Xangai.

Em 2013, fez 22s81 na semifinal da prova no Mundial de Barcelona. O tempo lhe daria a medalha de ouro. Mas, na final, terminou na quarta posição.

– Olá. Sou eu, Nicholas Santos de novo.

– Pois não.

– Estive aqui há alguns anos para ser campeão mundial dos 50m borboleta.

– Ah sim, me lembro de você.

– Me disseram que a fila era grande e que talvez eu precisasse esperar um pouco.

– Sim. Sua vez ainda não chegou?

– Ainda não. Se fosse só isso, estava bom.

– Por que?

– Eu que pergunto. Por que não me avisaram que ia ter tanto perrengue? Em um ano, eu bato o recorde das Américas, nado mais rápido que qualquer nadador da história dos Estados Unidos, o que em geral significa pódio em qualquer competição, e termino em quinto. Depois, fico suspenso e nem posso participar do Mundial. Na edição seguinte, tenho tempo para vencer a prova e termino sem medalha. O que está acontecendo?

– Ninguém falou que seria fácil, Nicholas.

– Apenas me diga uma coisa. Vale a pena continuar tentando?

– Isso é com você. Depende de sua definição de “valer a pena”.

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

Foi quando Nicholas percebeu que, quanto mais tempo passava naquela fila, mais amadurecido e preparado se tornava.

Resolveu, sim, continuar tentando. E em 2015 foi vice-campeão mundial, 12 centésimos atrás da medalha de ouro.

Hoje, mais um vice-campeonato. Desta vez quatro centésimos distante do vencedor.

Ele sabia que a espera seria longa. Aos 37 anos, ainda está na luta.

A busca pelo título mundial tem sido árdua, mas hoje ele valoriza muito mais a jornada do que o fim dela.

Por isso, a medalha de prata de hoje foi, sim, uma vitória.

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

Afinal, quando ele entrou naquela fila para ser campeão mundial, nem em seus sonhos mais loucos imaginava que um dia faria história como o mais velho nadador medalhista em um Mundial.

“Espero o tempo que for”, disse ele no diálogo no início do texto.

Por isso, o título mundial pode esperar mais um pouco. Até 2019, para ser mais preciso.

37 anos e contando…

Por Daniel Takata

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