Primeiro dia do mundial de curta: o peso do ouro olímpico

07/12/2016

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Ninguém é campeão olímpico por acaso. Por mais clichê que a frase soe, o primeiro dia de finais do 13º Campeonato Mundial de Piscina Curta, em Windsor, no Canadá, foi uma tradução quase perfeita da sentença.

E o interessante é que, dos quatro campeões olímpicos que venceram provas individuais, três deles sequer subiram ao pódio em suas especialidades nos Jogos do Rio de Janeiro, este ano. Por pior que seja a fase, por mais que pareça que o auge já passou, jamais subestime um campeão olímpico.

Que o diga o sul-coreano Tae-Hwan Park. Com a vitória nos 400m livre com 3min34s59, em uma acirrada batalha contra o russo Alexander Krashykh e um final de prova fortíssimo, se recupera de uma frustrante Olimpíada, para a qual teve sua preparação prejudicada por ter sido suspenso por doping em 2014 e de ter recebido uma punição adicional de sua federação, ficando pendente sua participação olímpica até as vésperas do evento. Após os Jogos, fez excelentes tempos (incluindo um que lhe daria a prata olímpica nos 200m livre) e agora mostra que, oito anos após o ouro olímpico nos 400m livre em 2008, continua entre os grandes. E, após vencer Olimpíada, Mundial de longa, Jogos Asiáticos e Pan-Pacífico, conquista o único título que não tinha, o mundial de curta.

A italiana Federica Pellegrini também mostrou que a experiência de uma campeã olímpica faz a diferença. A húngara Katinka Hosszu desafiou o recorde mundial dos 200m livre na primeira metade da prova, mas Pellegrini, como de costume, não se desesperou ao se ver quase um segundo atrás. Já vimos a italiana passar muito atrás e não conseguir se recuperar, mas dessa vez conseguiu dosar de forma perfeita e ultrapassou a húngara nos últimos 50 metros. 1min51s73 é seu melhor tempo sem trajes tecnológicos (1min51s17 sendo seu recorde nacional de 2009). E, assim como Park, já havia conquistado todos os títulos possíveis na prova, exceto um mundial de curta. Agora não falta mais. Para Hosszu, sabor amargo por saber que foi com muita sede ao pote e que pagou o preço no final por iniciar muito forte. Após vencer os 200m livre em todas as nove etapas na Copa do Mundo, termina com 1min52s28, um pouco acima de seu melhor tempo na temporada de 1min52s08 na etapa de Berlim no circuito. Manuella Lyrio chegou à final da prova e terminou na oitava posição com 1min55s51 (1min55s19 na eliminatória), saindo satisfeita de sua primeira final em um Campeonato Mundial.

Federica Pellegrini (foto: divulgação)

Federica Pellegrini – Foto: Divulgação

Mas, se nos 200m livre Hosszu não conseguiu superar a estratégia de uma especialista, o mesmo não se pode dizer dos 400m medley. Absoluta do início ao fim, a vitória com 4min21s67 veio com seis segundos de vantagem. Inclusive o tempo que lhe deu o ouro olímpico de 4min26s36, em piscina de 50 metros, seria suficiente para a vitória hoje – provavelmente uma das raras ocasiões, se não for a única, que o tempo da vitória olímpica na piscina longa daria o ouro nesse mundial de curta. O que demonstra sua enorme superioridade. Não ameaçou seu recorde mundial de 4min19s46, mas é seu melhor tempo na temporada. E, exatamente como Park nos 400m livre e Pellegrini nos 200m livre, Hosszu já havia conquistado tudo nos 400m medley, exceto um título mundial de curta. A vietnamita Ahn Vien Nguyen teria conquistado a primeira medalha da história de seu país na competição, mas foi desclassificada, deixando a prata para a americana Ella Astin. Decepção para a bronze olímpica na prova Mireia Belmonte. A espanhola havia derrotado Hosszu no Mundial de 2014. Hoje, terminou na quinta posição, 12 segundos acima do tempo de dois anos atrás. A vingança da húngara dessa vez nem teve graça.

E o vencedor olímpico dos 200m borboleta de 2012 Chad le Clos fez uma prova de contrastes. Uma aula de como se nadar e como não se nadar ao mesmo tempo. No geral não conseguiu calcular apropriadamente a aproximação nas bordas, o que resultou em entradas nas viradas ruins, algo mortal em piscina de 25 metros. No entanto suas ondulações submersas foram impressionantes e fizeram a diferença, especialmente nos últimos 25 metros. Virando na terceira posição, tirou a distância de maneira espetacular para o americano Tom Shields e o japonês Daiya Seto. Final de prova monstruoso. Resultado: ouro com 1min48s76, seu terceiro título mundial de curta na prova e sétimo no total. Ficou a apenas 20 centésimos acima de seu recorde mundial. Após a prova, disse que já está na hora do recorde cair (é de 2013), mas que a vitória valeu. É a terceira melhor marca da história. Se melhorar a entrada para as viradas, bate o recorde. Isso sem mencionar o fato de suas respiradas para o lado para olhar os adversários, algo que ele não parece conseguir, e nem querer, corrigir. Em piscina curta seu nado submerso compensa esse erro. Na longa, provavelmente foi responsável por deixá-lo fora do pódio na Olimpíada do Rio. Leonardo de Deus, com 1min52s65, termina na quinta posição, próximo de sua melhor marca pessoal de 1min52s20, e também sai satisfeito. É sua melhor colocação em mundiais.

Chad le Clos (foto: Fabio Ferrari/LaPresse)

Chad le Clos – Foto: Fabio Ferrari/LaPresse

E mesmo na única final individual que não contava com campeão olímpico, a medalha olímpica fez a diferença. Nos 200m medley masculino, o vencedor das últimas quatro Olimpíadas, Michael Phelps, se aposentou, e a vitória foi para o único medalhista olímpico da prova presente, o chinês Wang Shun, bronze no Rio de Janeiro. Terceiro na parcial de borboleta, liderou o restante da prova e foi levemente ameaçado somente no final pelo alemão Philip Heintz. 1min51s74 foi seu tempo, 11 centésimos acima de seu recorde nacional da etapa da Copa do Mundo de Berlim esse ano.

Vitória para os Estados Unidos no revezamento 4x100m livre feminino (destaque para a parcial de 51s04 de Kelsi Worrell), em uma prova que a equipe da casa, o Canadá, chegou na segunda posição e foi bizarramente desclassificada por suas atletas nadarem em uma ordem diferente da informada na inscrição. Em uma competição desse nível nos lembramos apenas de um caso semelhante, no Mundial de 2001 em piscina longa, no qual a equipe americana masculina foi desclassificada pelo mesmo motivo. No 4x100m livre masculino hoje, vitória para a Rússia, com destaque para a parcial de Vladimir Morozov de 45s42 – parcial nem tão impressionante, visto que ele já fez 45s57 na prova individual esse ano, mas fez a diferença na disputa contra a equipe francesa. Na terceira posição um raríssimo empate entre as equipes australiana e americana.

Amanhã grandes chances de medalha para o Brasil nos 100m peito. Felipe França passou com o segundo tempo da semifinal com 56s99, atrás dos 56s83 do alemão Marco Koch. Há dois anos, França venceu a prova e tem boa chance de buscar o bicampeonato, visto que o Koch fez a melhor marca pessoal hoje (tinha 57s01) e parece ter dado tudo, ao contrário do brasileiro que tem como melhor marca 56s25. Felipe Lima, por sua vez, com 57s71, saiu frustrado, principalmente porque seu melhor tempo esse ano é de 56s83, que o colocaria na briga por medalhas.

Por Daniel Takata

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