Suspensão por doping sem ter testado positivo?

Entenda como funcionam a avaliação "whereabouts" da WADA e quais as consequências de quem perde o teste antidoping

10/05/2019 - Alexandre Pussieldi

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Ruta Meilutyte - Foto: Mike Lewis/Ola Vista Photography
Ruta Meilutyte - Foto: Reprodução

Ruta Meilutyte - Foto: Reprodução

Ruta Meilutyte - Foto: Mike Lewis/Ola Vista Photography

* Texto publicado originalmente no Blog do Coach dia 10 de maio de 2019.

A imagem abaixo é do dia 22 de abril de 2018. Um domingo pela manhã, na piscina do Flamengo. Um dia depois de defender o Flamengo no Troféu Brasil, a lituana Ruta Meilutyte ministrou uma clínica para jovens nadadores dos clubes do Rio de Janeiro. Neste mesmo dia, uma equipe de controle anti-doping esteve na sua residência, em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde ela estabeleceu como base de treinamento para os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020.

Ruta perdeu seu segundo teste no dia 19 de agosto, uma semana depois do Campeonato Europeu de Glasgow, onde foi medalha de prata nos 100 metros peito. O terceiro e derradeiro teste perdido aconteceu em 29 de março. Cada teste perdido, é uma pequena multa e uma advertência. Três testes perdidos, é um problema grande para Ruta Meilutyte. Pelas regras da WADA, artigos 2.4 e 10.3.3 indicam suspensão entre 12 a 24 meses.

Ruta Meilutyte em clínica n oFlamengo – Foto: Reprodução

Para uma atleta de alta performance, em preparação para os Jogos Olímpicos, já tendo passado por dezenas de controles, ser punida por doping sem ter nunca ter testado positivo, deve ser uma tragédia. O controle “whereabouts”, tradução paradeiro, foi introduzido pela WADA em 2009. Nele, atletas são selecionados pelas Federações Internacionais de esporte que escolhem, baseados em resultados e rankings, o grupo que obrigatoriamente deverá preencher diariamente as responsabilidades do ADAMS.

A sigla indica Anti-Doping Administration & Management System, um aplicativo onde estes atletas devem descrever suas atividades, locais e horários diariamente das 6h as 23h, 365 dias por ano. Devem ali apontar endereços dos seus treinamentos, residências e competições. Viagens, férias, tudo deve estar devidamente especificado pois a qualquer dia, a qualquer hora eles poderão ser visitados para um teste surpresa.

Ruta Meilutyte – Foto: Dennis M. Sabangan/EPA

A medida nasceu em virtude de experiências anteriores onde alguns atletas simplesmente desapareciam durante suas temporadas impedindo o controle. Existem histórias que atletas chineses abandonavam seus programas de treinamento e sumiam por semanas quando se identificava a chegada de uma equipe internacional de controle no país.

Se visitados, e os atletas não estiverem no local especificado na sua ficha, eles tem até uma hora para se fazerem presentes. Passados estes 60 minutos, é apontado como teste perdido. A regra anterior apontava três testes perdidos em 18 meses para uma punição. Agora, a regra é de 12 meses, e foi onde Ruta Meilutyte caiu.

As regras e processos do controle anti-doping mudaram muito. A Austrália em 2006, foi a primeira das agência de controle a instituir o departamento de inteligência e investigação. Hoje, cerca de 30% dos atletas banidos do esporte australiano nunca testaram positivo.

Filippo Magnini – Foto: Reprodução

Casos de atletas serem punidos por doping sem ter testado positivo nos leva ao ciclista Lance Armstrong vencedor sete vezes do Tour da França. Embora respondesse há anos em acusações de doping, nada era apontado nas dezenas de exames de controle. Até que um processo de investigação acabou por determinar o seu banimento e a perda de todas as suas conquistas.

A corredora americana Marion Jones também é outro caso famoso. Dona de cinco medalhas olímpicas, Jones perdeu tudo o que conquistou nos Jogos de Sydney em 2000 ao ser incluída no escândalo do Laboratório Balco, nos Estados Unidos, onde era uma das clientes do processo de dopagem organizado.

Também já temos nadadores suspensos por doping sem nunca terem testado positivo. O caso mais famoso é do italiano Filippo Magnini. Bi-campeão mundial dos 100m livre, Magnini foi punido pelo seu envolvimento com um nutrólogo de seu país que administrava e distribuía substâncias proibidas. Magnini já havia anunciado a sua aposentadoria, mas cumpre a punição até 2022.

Ruta Meilutyte – Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Voltando ao caso da Ruta, acho difícil que ela pegue a pena máxima, 24 meses. Nestes casos, o atleta é chamado para preencher um documento indicando o motivo dos testes perdidos. De acordo com a Federação Lituana de Natação, ela assumiu a responsabilidade (ou irresponsabilidade) ao não ter atualizado o seu ADAMS devidamente. O mesmo é acessível num simples aplicativo no celular e pode ser atualizado a qualquer momento.

As penas máximas, 24 meses, seriam mais adequadas para aqueles atletas onde fica configurado que ele estava a “fugir” das pessoas que fazem os controles. A tendência para Ruta é ficar de fora por 12 meses, em tempo para disputar a seletiva e ou atingir a marca estabelecida pela Federação de seu país e poder disputar a sua terceira Olimpíada.

De qualquer forma, seja qual for a suspensão de Ruta, ela fica impedida de treinar com qualquer técnico e/ou clube oficial filiado a federação de seu país ou estrangeira. Pela regra, ela vai ter de treinar sozinha acompanhada de um treinador particular.

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Alexandre Pussieldi antidoping natacao Ruta Meilutyte WADA

Alexandre Pussieldi

Editor-chefe da Best Swimming e colunista da SWIM CHANNEL.

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