Uma ode a Etiene Medeiros

27/07/2017

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“Largada.

Saí bem. Consegui entrar bem na água.

Preciso acertar essa ondulação.

Quero ondular para sempre, mas não posso passar dos 15 metros.

Pronto. No limite. Minha cabeça está na altura da cordinha de escape.

Preciso fazer direito essa transição. Vamos lá.

Ufa! Perfeito! Nem muito fundo, nem muito raso.

Agora é puxar muita água e levar até o final.

Não posso patinar.

Não patino. Me sinto grande na água.

Acho que estou bem.

Bandeirinha. Um, dois, três, quatro, preciso acertar essa chegada.

Acertei!

Será que deu?”

Etiene Medeiros (foto: Satiro Sodré/SSPress)

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

O relato acima poderia muito bem ter sido formulado por Etiene Medeiros, na descrição de sua prova de 50m costas hoje.

Como se vê, ela precisa matar um leão a cada cinco metros.

A prova de 50 metros é, por assim dizer, um resumo bem resumido do que Etiene tem enfrentado em sua carreira.

E cada parte de sua prova encontra um correspondente nas ocasiões mais marcantes de sua trajetória.

A largada foi a prova de 50m costas do Mundial Júnior de 2008. Em que Etiene se tornou a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha na competição, uma prata.

“Ganhou medalha no Mundial Júnior, mas não adianta se não corresponder na categoria adulta.”

A ondulação submersa nos primeiros 15 metros corresponde ao Mundial de Roma, em 2009, sua primeira seleção adulta.

“O que adianta pegar seleção em um Mundial se não consegue nem se classificar para a final?”

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

A transição da ondulação para a parte nadada é o Mundial de Barcelona, em 2013. Quarta posição nos 50m costas, melhor colocação de uma nadadora do país em Mundiais até então.

“Quarto lugar é o primeiro dos últimos. Ficou sem medalha, o que adianta?”

A parte nadada, propriamente dita, é o Mundial de curta de 2014. Ouro e recorde mundial nos 50m costas. Primeira brasileira campeã mundial em piscina.

“Ah, mas Mundial de curta não vale muito. O pessoal treina mesmo é para a longa.”

A chegada à bandeirinha é o Pan de 2015. Medalha de ouro nos 100m costas, primeira nadadora do país campeã na história da competição.

“No Pan, os Estados Unidos enviam uma seleção B. Quero ver é em Olimpíada e em Mundial de longa.”

As últimas braçadas correspondem aos Jogos Olímpicos de 2016. Finalista olímpica nos 50m livre, única nadadora brasileira finalista na competição.

“De final olímpica o Brasil está cheio. Quero ver subir no pódio.”

A chegada é a prova de 50m costas do Mundial de Budapeste, em 2017. Primeiro ouro feminino brasileiro nas piscinas na história da competição nos 50m costas.

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

(foto: Satiro Sodré/SSPress)

Vai ter gente que vai dizer que a prova não é olímpica. Não importa.

Assim como hoje ela superou um leão a cada cinco metros, na vida real são vários leões a cada competição.

Levando a natação feminina brasileira a patamares nunca antes alcançados, Etiene chegou onde nenhuma nadadora do país chegou nas piscinas.

Hoje, em sua prova de 50m costas, a cada metro ela parecia mais forte.

A pressão das adversárias e a importância do evento não pareciam abalá-la.

Pelo contrário.

E, a cada conquista em que é pioneira, Etiene, campeã mundial, fica maior, mais forte, mais robusta.

Deixem que falem. Nada indica que ela irá parar por aí.

Por Daniel Takata

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