Victor Colonese fala de seu impremeditado bronze no Pan de Lima

Após o doping de Guillermo Bertola, nadador brasileiro herda a medalha de bronze e recebe a notícia em meio a quarentena

10/06/2020 - Catarina Ganzeli

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Victor Colonese - Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA
Victor Colonese - Foto: Satiro Sodré/SSPress

Victor Colonese - Foto: Satiro Sodré/SSPress

Victor Colonese - Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Em meio a um período cheio de mudanças e incertezas, aparece uma notícia que mobiliza o público masculino da maratona aquática brasileira. Entre provas canceladas e treinos adaptados, na manhã de ontem, terça-feira, dia 9 de junho, o atleta brasileiro Victor Colonese, recebeu a notícia de que herdou a medalha de bronze na última edição dos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019, de onde saiu com uma dolorosa quarta colocação.

Após apurado e confirmado o caso de doping do nadador argentino Guillermo Bertola, com pena a cumprir de quatro anos, por uma transfusão de sangue realizada em 2018, os resultados do Pan-Americano foram revistos. Na ocasião, a prova foi vencida por Esteban Enderica com 1h53min46s7, Bertola em segundo com 1h54min00s0, Taylor Abbott em terceiro com 1h54min02s7 e Colonese em quarto com 1h54min03s6, apenas a segundos do que seria o resultado mais importante de sua carreira.

Nesse dia marcante na carreira do atleta, onde Colonese se iguala a um resultado importantíssimo de seu amigo e adversário Allan do Carmo, a SWIM CHANNEL teve a oportunidade de entrevistá-lo. Confira a entrevista na íntegra:

Victor Colonese – Foto: Satiro Sodré/SS Press

SWIM CHANNEL: Victor, primeiramente parabéns pelo grande resultado! Você estava acompanhando o julgamento do caso de Bertola? Esperava por essa notícia?

VICTOR COLONESE: Muito obrigado pelo espaço e reconhecimento. Bom…eu já havia recebido notícias em fevereiro, confesso que não entendo muito bem sobre a área do doping, mas logo fui me informar e com o decorrer do tempo fui acreditando que ele poderia realmente ser punido.

SC: Como era sua expectativa na ocasião da prova? Você chegou em Lima acreditando na medalha?

COLONESE: Fui para o Pan me baseando no resultado Campeonato Sul-Americano de 2018, onde fui vice-campeão da prova dos 10 km e o Enderica campeão. Por essa competição ter sido no local onde estava marcado para ser o Pan do ano seguinte (o que não aconteceu pelas condições climáticas) e por ter os principais atletas da América do Sul, achei que seria uma boa referência. O Sul-Americano também foi nadado com roupa de borracha, porém foi no mar. Já no Pan estava com temperatura abaixo de 15º C, tendo que ser transferido para o Lago de Bujama. Esse resultado me deixou confiante para a prova, pois sabia que além do Enderica, Bertola e meu compatriota Allan do Carmo, além dos americanos e canadenses que sempre vem fortes. O ano de 2019 não foi fácil para mim. Fiquei doente meses antes do Mundial, em meio a minha preparação, na sequência viajei para o treinamento de altitude (pago pelas Forças Armadas), junto à comissão técnica brasileira e meu companheiro de seleção Allan do Carmo. Esse programa é muito intenso e senti que faltou um pouco de descanso entre o retorno da altitude e o Campeonato Mundial, onde nadei os 10 km, que era seletiva olímpica, uma prova muito forte e a mais disputada do calendário. Inclusive, optei por não nadar os 25 km no Mundial, visando meu desempenho nos Jogos Pan-Americanos que aconteceriam semanas depois. Na semana anterior a viagem para o Pan-Americano, logo que cheguei em Lima, me surpreendi positivamente com meu desempenho nos treinos, estava muito melhor do que nas semanas anteriores e senti que o polimento (descanso) tinha encaixado. Isso me trouxe muita confiança para nadar a prova.

Victor Colonese – Foto: Satiro Sodré/SSPress

SC: Fale um pouco da prova e suas sensações.

COLONESE: Saí da prova com a certeza de que tinha dado o meu melhor. Sei que tiveram alguns erros que me custaram algumas colocações, mas em sua totalidade a prova foi bem nadada. Confesso que fiquei um pouco frustrado por sentir que meu melhor ficou a dois segundos de um resultado histórico. A quarta colocação é difícil de digerir, mas sempre valorizei, sabendo que foi um excelente resultado. Tinha chego realmente perto do pódio e sofri duas ultrapassagens na reta final, primeiro do Bertola à 600m da chegada e dentro do funil pelo americano Abbott, que conseguiu bater na placa na minha frente. A prova foi mais desgastante que o normal por ser com traje de neoprene, que limita a movimentação do ombro e tem muitas variações de ritmo bruscas. Por diversos momentos ficaram pequenos pelotões a frente da prova, até que o atleta canadense desgarrou do grupo, dando um tiro, mas não sustentou o ritmo, caindo bruscamente de colocação no final. Tanto que no fim da prova cheguei em quarto lugar, mas achei que tinha sido quinto, pela distância que o canadense abriu. Minha estratégia para a prova era de ficar no pelotão da frente o tempo todo e atacar no final. Não gosto muito do formato que fizeram o circuito, sendo oito voltas de 1250m. Prefiro que fossem menos voltas, o que exigiria mais da habilidade de navegação, em que me considero experiente. Foram dois trechos grandes, próximos de 500m e dois trechos bem próximos.

SC: Como é sua rivalidade com o Allan do Carmo?

COLONESE: Eu e Allan somos grandes amigos e conversamos bastante, mas na água os dois querem ganhar. O Allan é o melhor atleta de maratonas aquáticas que o Brasil tem, com um currículo que não foi igualado por outro brasileiro. Hoje igualo um deles, mas reconheço que ele é o principal atleta de maratona aquática do país por sua história. É muito bom estar ganhando de alguém que é referência. Ele está em uma fase boa da carreira, mas nessa ocasião a roupa de neoprene atrapalhou. A gente tem algumas brincadeiras internas, como a de falar que o outro é o favorito da prova antes de cair na água. Inclusive minhas camisetas produzidas pelo Atletas de Marca, são idealizadas a partir de um trocadilho que ele sempre fez comigo. Já estamos juntos na seleção fazem nove anos, é uma competitividade muito saudável e importante para ambos.

Victor Colonese – Foto: Unisanta/Reprodução

SC: Como você descreve a sua performance com o traje de neoprene em relação a seus adversários?

COLONESE: A roupa de borracha é uma nova natação. Acredito que dentre os adversários presentes eu me adaptei bem. Alguns levam mais vantagem, outros menos, mas eu considero que me adaptei bem. Acredito que a roupa favorece mais os atletas de nível técnico inferior, quanto melhor é o nado do atleta, menos diferença faz. Ainda tenho que me adaptar melhor no quesito mobilidade, principalmente pela forma como ela limita a articulação dos ombros, que é a mais usada na modalidade, porém, acho que consigo manter um nível aceitável.

SC: Qual a solução para melhorar seu nado com a roupa de neoprene? Você tem treinado com ela?

COLONESE: Eu tenho que treinar mais com ela. Onde treino, não tenho condições de utilizá-la por conta da temperatura da água e devido a minha rotina não tenho buscado outras alternativas.

SC: A conquista desta medalha o impulsiona na busca por novos objetivos? Quais?

COLONESE: A gente vive um período difícil em busca de construir uma rotina de treinamento e essa medalha, que é uma conquista grandiosa na minha carreira, me faz lembrar a satisfação de alcançar um objetivo e me motiva a focar na disputa da vaga olímpica. Hoje mesmo, eu até treinei duas vezes no mar de São Vicente, coisa que não estava fazendo. Meu foco agora é a nova seletiva brasileira, para classificar para a segunda seletiva olímpica, onde serão definidas as 15 vagas restantes de países ainda não classificados.

Victor Colonese – Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

SC: Como será o seu treinamento após a pandemia? Qual o foco?

COLONESE: A grande diferença é que tenho feito todo o treinamento sozinho, principalmente a parte de preparação física. Após esse período irei me reunir com meu preparador para revisar meu trabalho, focamos em fortalecer meus pontos fracos e iremos reavaliar quais são minhas maiores necessidades, após esse formato. No meu treinamento e periodização de água eu confio e sigo meu técnico Marcio Latuf de olhos fechados, sem questionamentos. Estamos juntos há dez anos, um trabalho ao qual zelo por manter nesse ciclo olímpico.

SC: Como você sente que esta conquista, pode influenciar a maratona aquática masculina no Brasil?

COLONESE: Acho que essa medalha reposiciona a maratona brasileira a nível pan-americano, visto que foram 12 anos sem um pódio. Volta a colocar o Brasil na elite das Américas.

SC: Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores?

COLONESE: Gostaria de agradecer esses dez anos de apoio da Unisanta como atleta e aluno, possibilitando manter minha vida acadêmica enquanto atleta profissional e me preparando para as principais competições do calendário internacional. Gostaria de agradecer a comissão técnica na íntegra. Como terceiro sargento do exercito, não posso deixar de mencionar o apoio que as Forças Armadas têm concedido à minha preparação como atleta. Agradeço muito, toda a torcida e o incentivo da minha família, ao buscar meus sonhos, eles assim como eu, não medem esforços para que eu os realize.

SC: A equipe da SWIM CHANNEL agradece sua disponibilidade e atenção! Estaremos torcendo por você em seus próximos desafios.

COLONESE: Obrigado Catarina e equipe por me concederem esse espaço, valorizar e reconhecer esse feito tão importante para mim e para as maratonas do Brasil.

* O técnico de Colonese, Marcio Latuf, citado na entrevista, também nos deixou suas palavras sobre o feito do atleta: “Sempre muito dedicado, Victor veio bem jovem para Santos, onde cresceu muito como atleta. Essa medalha veio através de seu comprometimento e dedicação com seu treinamento”.

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Águas abertas Jogos Pan-Americanos Lima-2019 natacao Victor Colonese

Catarina Ganzeli

Nadadora da Unisanta e da seleção brasileira  especialista em ultramaratonas aquáticas

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