Uma prova histórica, a coroação de uma sequência de bons resultados que culminou com a medalha olímpica. Foi em 16 de Setembro de 2000, completando 25 anos hoje, o bronze da Seleção Brasileira no revezamento 4x100m livre nos Jogos de Sydney. Fernando Scherer, Gustavo Borges, Carlos Jayme e Edvaldo Valério nos deram uma alegria que jamais será esquecida e que hoje completa o Jubileu de Prata. Venha mergulhar conosco neste capítulo histórico da natação brasileira.

Sydney, 16 de Setembro de 2000
Um dia após a abertura da Olimpíada, a arquibancada do Sydney International Aquatic Center estava abarrotada para celebrar o novo formato da natação olímpica que agora contava com oito dias de disputa e a chegada das semifinais. Um confronto esperadíssimo entre as duas maiores nações da natação mundial estava por celebrado e que iniciava logo com um duelo bastante antecipado. No ano anterior os australianos bateram os americanos no Pan Pacífico numa acirrada disputa onde as duas nações terminaram empatadas em medalhas de ouro e as pratas deram pela primeira, e única vez, o título da competição para a Austrália. Agora, era a hora de fazer isso no cenário olímpico.

A guerra das guitarras
Os americanos nunca haviam perdido o revezamento 4x100m livre masculino em Mundiais ou Jogos Olímpicos. No ano anterior, no Pan Pacífico, a Austrália venceu a prova e buscava fazer história agora na disputa olímpica. Logo na chegada a Sydney, ainda no aeroporto, a mídia esperava a a delegação americana e os jornais australianos já estampavam uma declaração de Gary Hall Jr. na sua capa: “Vamos esmagá-los como guitarras”. A frase, segundo o próprio velocista americano foi tirada do contexto, pois ele falou elogiando a boa fase da natação australiana e o quanto seria difícil vencer a prova. Fora do contexto ou não, serviu apenas para colocar ainda mais expectativa nesta belíssima batalha.

A maravilhosa fase do revezamento do Brasil
O revezamento 4x100m livre masculino do Brasil viveu a sua maior fase de resultados na década de 90. Tudo iniciou com o ouro (inesperado) dos Jogos Panamericanos de Havana 1991. Aliás, desde lá, o Brasil nunca mais perdeu esta prova em Jogos Panamericanos. Mas não foi um resultado isolado e que no início favorecido pela desclassificação dos favoritos americanos. Vieram três recordes mundiais em piscina curta, uma final olímpica em 1992 depois de 20 anos de ausência e um destacado sexto lugar. Brasil foi campeão mundial de piscina curta em 1993 e bi em 1995. Em Atlanta 1996, segunda final olímpica consecutiva e batendo o recorde sul-americano ficamos em quarto lugar, mas ainda mais de um segundo distante do pódio.

O Brasil e seus problemas
Durante toda esta fase suprema do revezamento 4x100m livre do Brasil, apenas Gustavo Borges esteve presente em todas as conquistas. Fernando Scherer chegou em 1992 para não mais sair da equipe. As outras posições eram alternadas com chegadas de novos integrantes. Gustavo e Xuxa nas suas terceiras Olimpíadas iriam nadar o revezamento com dois estreantes, o goiano Carlos Jayme e o baiano Edvaldo Valério da Silva. Xuxa era a maior preocupação da equipe por conta de uma lesão no tornozelo direito. Ele havia sofrido ruptura parcial de um tendão ao cair de uma escada em Coral Springs, na Flórida, onde treinava. Mancando e abatido, Xuxa foi uma preocupação do início ao fim, mas sua confiança em poder fazer o seu melhor impressionava a todos. Outro estreante, o capixaba Cesar Quintaes era o reserva da equipe e estava lá em Sydney se fosse necessário substitui-lo. “Se a gente não acreditar, não adianta” dizia Xuxa.

O fundista Edvaldo Valério
Sob o comando de Sérgio Silva, Edvaldo Valério treinava e treinava nos dias que antecediam o início da Olimpíada. Em sua biografia escrita por Rafael Carneiro “Braçadas para Vitória”, Valério descreve que todos os dias os companheiros de revezamento reclamavam de seus longos e intermináveis treinos. “Eles já estavam nadando 400 metros por sessão enquanto meus treinos não eram menores do que 4 mil metros”, revelava Valério. De origem humilde, Valério tomou como ninguém a missão de transformar a sua capacidade aeróbica num desafio único e histórico. Sua primeira Olimpíada e a missão de representar o país nesta prova tão especial e de retrospecto altamente positivo.

As eliminatórias
Eram três séries de disputa e o Brasil caiu na última, ao lado dos Estados Unidos. Na primeira série, a grande surpresa e boa notícia: a Holanda, uma das favoritas e que decidiu poupar a estrela Pieter van den Hoogenband foi desclassificada na sua primeira troca de revezamento. Brasil nadou na ordem de Fernando Scherer, Edvaldo Valério, Carlos Jayme e Gustavo Borges e com 3:19.29 ficou em segundo na sua série e quinto classificado para a final. A frente do Brasil pela ordem, Estados Unidos, Austrália, Alemanha e Itália.

A reunião e a definição da ordem
A condição física de Fernando Scherer era a maior discussão do grupo. Ele havia aberto o revezamento da eliminatória para 50.16, o pior tempo do time, mas garantia que na final seria melhor. “Não tem como não ser” dizia Xuxa que foi o primeiro a incentivar e acreditar na medalha. Chegou até a comemorar quando saiu a desclassificação dos holandeses. Gustavo, historicamente, era quem sempre fechava os revezamentos do Brasil, mas naquele momento algo precisava ser feito para colocar o time em condições de disputa pela sonhada medalha. Abrir com os dois mais fortes era uma possibilidade. Mas quem fecharia? “Eu fecho” respondia timidamente o jovem Valério Bala, então com 22 anos de idade.

Duas provas
Ficou claramente que haviam duas provas em disputa. A guerra das guitarras que valia o ouro entre Austrália e Estados Unidos e a briga também bastante acirrada pela outra posição do pódio, a briga pelo bronze. Alemanha, terceira colocada em Atlanta 1996, a Itália, a Rússia campeã europeia de Alex Popov, a Suécia de Lars Frolander e o Brasil, eram cinco times em briga pelo terceiro lugar.

A grande final
Com exceção da Rússia que colocou Popov para nadar na terceira posição, todas as demais equipes escalaram seus times abrindo com dois nomes fortes na prova. Fernando Scherer abriu para o Brasil, melhorou da eliminatória, fez 49.79 e entregou para Gustavo Borges em quinto lugar. Enquanto Austrália e Estados Unidos brigavam na sua disputa, Itália e Alemanha abriram na nossa frente. Gustavo nadou para 48.61, trouxe o Brasil para o quarto lugar, passou a Alemanha, passou a Itália, mas foi batido pela Suécia e o bom parcial de Lars Frolander. Carlos Jayme fez 49.88 e perdeu uma posição, Brasil caiu para quinto pois a Rússia com Alex Popov tomava o terceiro, Suécia em quarto. Os russos já estavam desclassificados, mas ninguém sabia disso pela primeira troca de passagem. Valério pula quinto e ainda chega a virar na mesma posição, mas é sua volta que faz toda diferença. Lembra dos 4 mil metros as vésperas da Olimpiada, o baiano tinha uma condição aeróbica incrível e seria difícil batê-lo no final da prova. Primeiro passou os russos, já desclassificados, depois os suecos, teve a aproximação da Alemanha e da Itália mas tocou em terceiro 49.12 colocando o Brasil no pódio com 3:17.40, 37 centésimos a frente dos alemães, 45 centésimos a frente dos italianos, o Brasil era bronze!

A festa
Enquanto Michael Klim fazia o sinal das guitarras em cima do bloco de partida levando a torcida australiana a loucura nas arquibancadas, Xuxa estava no chão abraçando Valério que ainda não havia saído de dentro d’água. “Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado” dizia e gritava Xuxa abraçando Valério. O Brasil que assistiu ao vivo na narração de Galvão Bueno e comentários de Cassiano Schalch Leal ganhava um bronze sonhado e esperado. Um revezamento que teve nove anos de trabalho e conquistas para chegar ao maior resultado da sua história.
Reveja o bronze histórico do Brasil completando hoje 25 anos
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