Por Felipe Freitas *
Aconteceu entre os dias 7 e 11 de setembro na cidade de Porto Alegre, a 15ª edição do “Biomechanics and Medicine in Swimming” (BMS), o mais antigo encontro científico de qualquer modalidade esportiva do mundo. Acontecendo de forma ininterrupta desde 1970 a cada quatro anos, o BMS teve sua primeira edição sediada na América Latina. O evento contou com workshops teórico-práticos, apresentações orais de trabalhos acadêmicos, exibição de posters de trabalhos científicos, além das palestras realizadas pelos maiores nomes da ciência esportiva relacionada com a natação.
A palestra de abertura foi do Prof. Raul Arellano, da Espanha, que falou sobre as vantagens e as limitações da utilização da Inteligência Artificial tanto na pesquisa quanto na análise e apresentou a bela e moderna estrutura da piscina da Universidade de Granada, um dos melhores laboratórios de natação do mundo. Foram quatro dias de palestras dos mais variados temas relacionados a natação e destacarei aquelas que acredito serem as mais importantes, além de destacar o brilhante trabalho dos palestrantes e pesquisadores brasileiros.

Um dos mais importantes temas a ser discutido foi o ensino da natação com grande ênfase na prevenção de afogamentos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (SOBRASA), a cada 90 minutos um brasileiro morre afogado. Muito foi discutido sobre novas formas de ensino da natação, não apenas focando no aprendizado dos nados, mas sim em uma competência aquática para garantir segurança e autonomia em qualquer ambiente. Destaco a palestra da Profª Kelly Graça sobre a competência aquática na prevenção e aprendizado de natação no Rio Amazonas.
O assunto mais debatido durante a semana, através das palestras e das apresentações orais de trabalho foi a biomecânica. Com o avanço da tecnologia, podemos ter mais ferramentas para análise de nado, assim como a dinâmica de fluidos, arrasto e propulsão. Através dessas inovações, foi debatido desde as implicações no treinamento resistido passando pela classificação das classes da natação paralímpica. Também foi assunto debatido o efeito da altitude no treinamento, com o Prof. Inigo Mujika expondo muito o trabalho de sucesso que realizou com o técnico Fred Vergnoux na preparação de Mireia Belmonte para conquista de medalhas olímpicas.

Gostaria de destacar as duas apresentações que mais gostei no BMS 2026. A do professor Augusto Barbosa do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) falando sobre o trabalho dele em unir método científico à prática trabalhando com atletas fora do padrão como Cesar Cielo e Maria Carolina Santiago. Augusto trouxe uma visão importante de como a ciência não busca conclusões mas explicações para sanar dúvidas e ajudar nas decisões dos que são os mais importantes, técnicos e atletas.
Outro destaque foi a palestra do grego Argyris Toubekis no último dia. Toubekis é um dos pesquisadores com maior número de publicações de revisão de literatura, e deu uma aula geral apresentando inúmeros trabalhos aplicando a fisiologia na performance para melhorar recuperação, ajustar planejamento, monitoramento e desenho das séries de treinamento.

Para finalizar, cito dois momentos que me fizeram chegar a uma conclusão. O primeiro foi a apresentação da tese de mestrado de Fernanda Alvarenga, ex-nadadora da seleção brasileira, que faz uma pesquisa brilhante rastreando a trajetória dos melhores nadadores do país, onde estavam nas categorias menores e que levam a um entendimento da formação do nadador brasileiro e pode mostrar onde estamos errando e onde podemos evoluir.
O segundo veio exatamente na palestra final encabeçada por Joao Paulo Vilas-Boas, presidente do Conselho da BMS e um dos mais respeitados pesquisadores de natação do mundo. Professor Vilas Boas apresentou sobre a evolução das análises biomecânicas e foi um verdadeiro tributo ao Professor Antonio Guimarães, pesquisador brasileiro falecido em 2001, o qual foi citado como grande inspiração de muitos dos pesquisadores palestrantes e presentes e respeitado mundo a fora.

Isso me fez chegar a conclusão de que o Brasil tem um potencial humano impressionante para ser uma potência nos esportes aquáticos, temos inúmeros cientistas e treinadores que não perdem em nada para os maiores países, o que nos falta é organização, investimento nas áreas corretas e aproximar a ciência da prática, como a European Aquatics vem realizando sob o comando do português Tiago Barbosa, com a fundação da EA Academy, para fornecer cursos e certificação para os treinadores, além de credenciar laboratórios para agregar ciência à prática. O resultado dessa soma é sem dúvida, performance!
* Felipe Freitas é graduado em educação física pela FMU e pós-graduado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atualmente ele integra o projeto Endurance Science Lab e treina atletas da Natação Indaiatuba.
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